Ninguém vai chorar pelo Irã – Editorial O Estado de S.Paulo
O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá.
Ao anunciar sua operação militar contra o Irã, EUA e Israel declararam como objetivo neutralizar ameaças iminentes, enfraquecer a infraestrutura militar do regime e impedir que Teerã obtenha uma arma nuclear. “A hora de sua liberdade está ao seu alcance”, disse Donald Trump, dirigindo-se ao “honrado povo iraniano”. “Quando terminarmos, assumam o seu governo. Só depende de vocês tomá-lo.”
Há quatro décadas a República Islâmica acumula um histórico de repressão interna, apoio a milícias terroristas e hostilidade aberta contra os EUA, Israel e países árabes, razão pela qual ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã.
Dito isso, não há certeza de que a guerra produzirá o resultado desejado. O fato de o regime iraniano ser autoritário e desestabilizador não o torna automaticamente frágil. Tampouco garante que bombardeios aéreos, por si sós, precipitem mudança política.
O que sabemos até aqui é limitado. Os danos reais às instalações nucleares e à cadeia de comando ainda não estão de todo claros. O Irã respondeu com salvas de mísseis contra Israel e bases americanas em aliados árabes como Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, ampliando o risco de conflagração regional. Os mercados de energia estão apreensivos ante os riscos de um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz.
O que não sabemos é mais relevante do que o que já se anunciou. A campanha será limitada, buscando degradar capacidades específicas e restaurar a dissuasão? Ou caminhará para uma escalada regional mais ampla, envolvendo milícias aliadas de Teerã e Estados vizinhos? Há fissuras reais na elite iraniana capazes de transformar pressão externa em ruptura interna? Ou a agressão externa reforçará o núcleo duro do regime, como tantas vezes ocorreu em sistemas revolucionários sitiados?
Três cenários se desenham, todos plausíveis neste estágio inicial. O primeiro é o de um conflito calibrado: ataques intensos, mas circunscritos, seguidos de nova rodada de negociação sob pressão. O segundo é o de uma escalada regional controlada, com ciclos de retaliação que elevem custos sem produzir colapso imediato. O terceiro, mais ambicioso e incerto, seria uma tentativa prolongada de enfraquecer o regime a ponto de efetivamente precipitar sua transformação.
Esse último depende de variáveis – coesão interna iraniana, disposição de aliados regionais, tolerância política doméstica nos EUA – que ainda não se deixaram medir.
Há também o fator tempo. Guerras raramente seguem o roteiro inicial de seus arquitetos. Decisões tomadas nos próximos dias – sobre limites, objetivos e critérios de sucesso – serão mais determinantes do que a retórica das primeiras horas. A história recente do Oriente Médio aconselha prudência: intervenções moralmente compreensíveis podem gerar consequências estratégicas inesperadas.
Nada disso implica indiferença quanto à natureza nefasta do regime iraniano. Trata-se de reconhecer que a eficácia de uma ação militar não se deduz da justeza de sua motivação. Conter um adversário é uma coisa; redesenhar sua ordem política é outra. Entre uma e outra, há riscos, custos e incertezas que não se dissipam com declarações firmes.
O teste agora não é apenas de poder militar, mas de clareza estratégica. Se o objetivo é impedir o Irã de ameaçar a região e obter a bomba, será preciso definir com precisão o que constitui sucesso – e, sobretudo, quais limites não se pretende ultrapassar. Se é derrubar o regime, é preciso definir qual preço se está disposto a pagar.
O realismo estratégico impõe reconhecer que a força pode abrir caminhos, mas não elimina a complexidade do terreno que se atravessa. A clareza moral impõe reconhecer que o Irã é um Estado pária e não pode ter uma bomba nuclear em hipótese alguma. Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca. “Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se do jugo da tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz”, disse o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Sejam lá quais as motivações por trás da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro (Estadão, 1/3/26)

