O agro brasileiro já produz em escala. Agora pode ir além
Agronegócio Brasileiro Foto Divulgação
Por Marina Grossi
Equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade no País representa uma vantagem competitiva rara, que poucos países conseguem reivindicar
O Brasil é um dos poucos países do mundo capazes de ampliar a produção de alimentos nas próximas décadas sem perder de vista a necessidade de reduzir emissões e preservar seus biomas. Esse equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade tornou-se um dos principais temas do debate internacional sobre segurança alimentar, e representa uma vantagem competitiva rara, que poucos países conseguem reivindicar.
E não é pouca coisa. O País responde por cerca de 11% da produção mundial de alimentos e lidera as exportações de produtos como soja, café, açúcar, carne de frango e suco de laranja. Hoje, a agropecuária brasileira produz alimentos suficientes para abastecer mais de 800 milhões de pessoas além da população nacional, reforçando o papel do País como um dos principais fornecedores globais de alimentos em um contexto de crescente pressão climática sobre a agricultura.
O protagonismo brasileiro, é importante frisar, vai muito além do volume produzido. O País reúne características raras no cenário internacional, como a disponibilidade de terras agricultáveis, a elevada oferta de água doce, um clima que favorece o plantio de múltiplas safras, uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo e a liderança em tecnologias de agricultura tropical, construída graças a mais de cinco décadas de investimento em pesquisa e desenvolvimento lideradas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Enquanto a safra de grãos alcança sucessivos recordes, impulsionada por ganhos de produtividade e inovação tecnológica, o País registrou em 2025 uma redução de 20,6% no desmatamento, segundo o MapBiomas. Esse desempenho reforça a percepção de que a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá cada vez mais da intensificação sustentável da produção nas áreas já abertas, e não da expansão da fronteira agrícola. Mais do que isso: o futuro da agricultura brasileira requer não apenas aumentar a produtividade, mas torná-la mais resiliente.
Os impactos da mudança do clima já estão ocorrendo, com chuvas mais irregulares, secas intensas e eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, que alteram a disponibilidade de água e a dinâmica dos solos. A perda da biodiversidade também traz ônus para a polinização, especialmente em culturas onde o Brasil é competitivo, como café, cacau e frutas, e compromete a saúde dos solos.
Assim, questões ambientais - mudanças climáticas, perda da biodiversidade, pressão sobre os recursos hídricos - estão na esteira das crescentes exigências de mercado, relacionadas ao combate ao desmatamento e à rastreabilidade. Elas estão redefinindo o que significa ser uma potência agroalimentar e colocam o Brasil frente a frente com uma importante reflexão: já não basta continuar produzindo muito. O País precisa decidir se quer liderar um novo modelo de produção de alimentos, baseado em sustentabilidade e maior valor agregado. Inegavelmente, houve avanços, nos últimos anos, no aumento da produção e da produtividade e menor conversão de vegetação nativa, mas há espaço para alcançarmos um novo patamar.
A agricultura regenerativa, sistema de produção que visa a restaurar a saúde dos solos, a biodiversidade e o ciclo da água, é uma das principais respostas para esse novo contexto, e pode representar uma importante vantagem competitiva para o Brasil. Estudo da Coalizão do Agronegócio, movimento formado por mais de 40 entidades e empresas do setor e liderado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), aponta que a agricultura regenerativa, que inclui práticas já conhecidas dos produtores brasileiros, como o sistema plantio direto, a rotação de culturas, bioinsumos, integração lavoura-pecuária-floresta e a intensificação da pecuária, podem responder pela redução de até 80% das emissões de gases de efeito estufa do agronegócio e ajudar o País a se tornar neutro em carbono até 2050, contribuindo para o alcance dos compromissos firmados no âmbito do Acordo de Paris.
A construção desse novo modelo de produção exige visão de longo prazo. Há mais de uma década, o setor empresarial já apontava que o futuro da competitividade brasileira passaria pela construção de sistemas alimentares capazes de conciliar produtividade, resiliência e conservação da natureza.
Essa visão foi apresentada pelo CEBDS na primeira edição da Visão 2050, em 2012, e reforçada na atualização do documento, em 2021, quando as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade passaram a ocupar um lugar ainda mais central nas decisões econômicas. Hoje, essa visão de futuro já orienta decisões estratégicas de governos e empresas e tende a definir, cada vez mais, a competitividade das economias nas próximas décadas.
O Brasil já mostrou que sabe produzir em escala, e essa etapa está resolvida. O que está em aberto é o tipo de potência agroalimentar que o País escolhe ser: uma que compete apenas em volume, ou uma que lidera pela combinação de inovação, sustentabilidade e produtividade. É essa escolha, mais do que a capacidade produtiva em si, que vai definir se o Brasil continuará alimentando o mundo enquanto fortalece, e não compromete, sua própria base de recursos naturais (Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds); Estadão, 7/8/26)

