O agro e o choque de custos – Por Celso Ming
O agro enfrenta problemas novos, como a Inadimplência, que atinge 8,8% dos produtores, alta dos fertilizantes e do diesel, tarifaço e incertezas sobre o El Niño. Foto Adilvan Nogueira/Estadão
A produção no campo segue em expansão; até que ponto a rentabilidade acompanha esse crescimento?
Resta saber se o atual aumento de custos e de incertezas é episódico e será logo revertido ou se já aponta para a perspectiva de estrangulamento estrutural.
A produção agrícola continua se expandindo, apesar dos apertos que vêm de muitas direções. Mas até que ponto o aumento da produção está sendo acompanhado, pelo menos, pela mesma rentabilidade do setor?
A safra de grãos do período 2015/2016 foi de 186 milhões de toneladas. Neste ano (2025/2026), a aceitar as projeções da Conab, será de 360 milhões de toneladas. Em dez anos, houve o crescimento espantoso de 93%.
Foi obtido graças aos chamados fatores Tec: tecnologia de preparo e correção de solo, avanço genético, melhoria na aplicação de fertilizantes e defensivos, mecanização com eletrônica embarcada e crescente utilização de capital.
Mais que tudo, o agro progrediu com forte mudança de mentalidade – que não se restringiu ao âmbito do produtor, mas se espalhou pelos serviços de apoio.
Mas o setor enfrenta problemas novos. Inadimplência, que atinge 8,8% dos produtores, alta dos fertilizantes e do diesel, tarifaço e políticas protecionistas adotadas pelos países ricos e, neste ano, as mega incertezas que rondam a expectativa do fenômeno climático El Niño.
É com base nesse aumento de custos que o engenheiro agrônomo e especialista em viabilidade de negócios da consultoria Agroplan, Antônio Lopes de Oliveira Neto, pergunta se a situação do agro no Brasil já não alcançou o ponto em que “o custo marginal necessário para obter produtividade adicional cresce mais rapidamente do que a receita marginal proporcionada por esse aumento”. Ou seja, trata-se de saber se produzir mais já não é compensado com boa rentabilidade da produção.
Outro jeito de lidar com esse problema é perguntar se o atual aumento de custos e de incertezas é episódico e logo será revertido – quando for reaberto o Estreito de Ormuz, quando não houver mais efeito El Niño ou quando caírem os juros –, ou se já aponta para a perspectiva de estrangulamento estrutural.
O professor do Insper e especialista em agropecuária Marcos Jank prefere avaliar o desempenho do agro de acordo com os ciclos que sempre prevaleceram na área. Para ele, o setor sempre viveu com volatilidade.
Os atuais choques de custos não incidem uniformemente. Boas e más fases se revezam na produção de carne, de açúcar, de soja, de milho e de café... Sempre haverá quem perca e quem ganhe no mesmo ano. E a terra vai mudando de mãos.
A resiliência do agro conta, avisa Jank. Na Europa e nos Estados Unidos, os problemas se acumulam, os subsídios pesam, o produtor envelheceu, a moçada não quer mais trabalhar no campo, ao contrário do que acontece por aqui. “É enfrentar as dificuldades, melhorar a administração e esperar pela virada” (Estadão, 27/8/26)

