O agro paulista precisa de prioridades,transparência e respeito ao produtor
Por João Henrique de Souza Freitas
O agronegócio paulista atravessa um momento que exige responsabilidade, planejamento e liderança institucional.
Quem vive o campo diariamente conhece a realidade do produtor: custos de produção elevados, crédito mais caro, margens cada vez menores, desafios sanitários, insegurança jurídica, pressão ambiental e dificuldades de mercado.
O próprio Departamento Econômico da FAESP reconhece que o Estado de São Paulo registrou desaceleração no crédito rural, retração dos investimentos e aumento da inadimplência durante o Plano Safra 2025/2026. Ainda assim, São Paulo movimentou cerca de R$ 29,7 bilhões em crédito rural, correspondendo a 9,5% de todo o crédito rural desembolsado no Brasil, demonstrando a enorme relevância econômica do nosso Estado para o agronegócio nacional. (FAESP/SENAR-SP/CAESP)
Nesse cenário, torna-se inevitável uma reflexão sobre as prioridades das entidades que representam o produtor rural.
Os recursos que sustentam o Sistema SENAR são provenientes da contribuição incidente sobre a comercialização da produção rural. Trata-se de recursos arrecadados graças ao trabalho diário de milhares de produtores que esperam ver esse investimento retornar em forma de qualificação técnica, assistência ao campo, inovação, tecnologia, gestão, sucessão rural, defesa sanitária e fortalecimento da atividade produtiva.
Essa, inclusive, é a própria missão institucional do SENAR: promover educação profissional, assistência técnica, promoção social e desenvolvimento sustentável da atividade rural. (FAESP/SENAR-SP/CAESP)
É justamente por isso que merece reflexão a crescente prioridade dada a eventos institucionais e programas de relacionamento, entre eles o “Semeadoras do Agro”.
Não se questiona a importância da participação feminina no agronegócio. Muito pelo contrário. As mulheres ocupam posição cada vez mais relevante na gestão das propriedades rurais, na sucessão familiar, na pesquisa, na indústria e na liderança do setor.
O debate necessário é outro.
Em um momento em que milhares de produtores enfrentam dificuldades econômicas, é legítimo perguntar:
Qual o investimento realizado nesses programas?
Quantos produtores foram efetivamente beneficiados?
Quais indicadores demonstram aumento de produtividade, geração de renda ou melhoria da competitividade do agro paulista?
Quanto desses recursos retornou para regiões altamente produtivas como Araraquara e Ribeirão Preto?
Transparência nunca enfraquece uma instituição. Pelo contrário, fortalece sua credibilidade.
Os produtores que financiam o sistema têm o direito de conhecer os critérios utilizados para definição das prioridades e os resultados concretos obtidos com cada programa desenvolvido.
Araraquara e Ribeirão Preto não são regiões periféricas do agronegócio paulista.
Somos protagonistas.
Nossa região concentra uma das maiores produções de cana-de-açúcar do mundo, é referência na citricultura brasileira, abriga cooperativas, agroindústrias, universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia agrícola e milhares de produtores responsáveis por significativa parcela da riqueza gerada no campo paulista.
Justamente por isso, esperamos que a distribuição dos investimentos acompanhe a importância econômica dessas regiões.
Também preocupa qualquer percepção de que determinados grupos, regiões ou programas recebam maior atenção institucional sem que existam critérios objetivos amplamente conhecidos pelos produtores.
As entidades de representação do agro existem para servir ao produtor rural.
Não para servir projetos pessoais.
Não para atender interesses circunstanciais.
Não para promover protagonismos individuais.
Seu compromisso deve ser exclusivamente com quem produz.
O produtor rural paulista não precisa apenas de eventos.
Precisa de assistência técnica.
Precisa de cursos voltados às novas tecnologias.
Precisa de apoio para enfrentar questões ambientais.
Precisa de defesa institucional.
Precisa de representação política firme.
Precisa de inovação.
Precisa de acesso ao crédito.
Precisa de gestão eficiente.
Precisa sentir que os recursos arrecadados retornam efetivamente para dentro da porteira.
Defender essas prioridades não significa dividir o setor.
Ao contrário.
Significa fortalecer o Sistema, valorizar o produtor e preservar a confiança de quem mantém essa estrutura funcionando.
Como engenheiro agrônomo, professor universitário, dirigente sindical e Secretário Municipal de Agricultura, continuarei defendendo um agro cada vez mais técnico, transparente, eficiente e comprometido com resultados.
Porque o produtor rural merece respeito.
E recursos do agro devem, acima de tudo, voltar para o agro (João Henrique de Souza Freitas é engenheiro agrônomo, secretário Municipal de Agricultura de Araraquara, diretor do Sindicato Rural Patronal de Araraquara e professor universitário; 13/7/26)

