O agronegócio e um horizonte de Brasil – Por Paulo Hartung
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Em meio século, o País passou de importador de alimentos a fornecedor global, reunindo condições únicas para ampliar sua participação nesse mercado.
Enquanto ainda processamos as reviravoltas de 2025 e tentamos navegar em seus desdobramentos, uma boa notícia nos aponta a direção: o excelente desempenho do agronegócio brasileiro.
No ano passado, exportamos US$ 169 bilhões em produtos agrícolas, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O bom resultado traz um aumento em relação ao ano anterior, apesar de múltiplos obstáculos, como a volta do protecionismo no comércio internacional, um persistente ciclo de juros altos no Brasil e nossa carente infraestrutura – ferrovias, rodovias, portos, aeroportos, conectividade, etc.
Apesar do cenário desfavorável, a performance do agro não deve ser vista como surpresa, mas sim como consequência. Resulta de estratégia competente e diligentemente desenvolvida ao longo das últimas cinco décadas. Trata-se de um setor que, lá atrás, apostou em conhecimento científico e em capital humano, entre outros nortes, a fim de desenvolver nossa agricultura tropical.
Também em 2025, observamos a diversificação dos produtos enviados ao exterior, que se somaram aos líderes de nossa pauta exportadora: soja, proteína animal, café, açúcar, celulose e, mais recentemente, algodão, etanol, milho, entre outros. Da mesma forma, tivemos a bem-sucedida abertura de novos mercados.
Há outros dados, no entanto, que igualmente merecem atenção quando analisamos o agronegócio brasileiro e que nos ajudam a traçar as perspectivas para o horizonte próximo. De acordo com o Censo Agropecuário, consolidado pela Esalq/USP, apenas 8% (394 mil) do total de propriedades rurais no Brasil são responsáveis por 82% daquilo que é produzido no campo. Ou seja, mais de 4 milhões de propriedades rurais seguem fora do jogo.
As estatísticas postas lado a lado indicam o rumo a seguir. A simples introdução de técnicas modernas, aliada a políticas públicas, possibilitaria um aumento extraordinário de nossa capacidade produtiva nos próximos anos. De fato, as oportunidades a serem aproveitadas são enormes.
Vale lembrar que o País tem hoje mais de 100 milhões de hectares de terras já antropizadas com algum nível de degradação, segundo o Atlas das Pastagens, da Universidade Federal de Goiás. Terras que podem ser utilizadas para diversos fins, como a produção de grãos, fibras, energia e restauração florestal. Esse movimento, articulado à capacidade técnica e ao avanço tecnológico, nos coloca em posição privilegiada para seguirmos garantindo a segurança alimentar global.
O setor de árvores cultivadas para fins industriais e restauração de nativas vem desbravando esse caminho de reinvenção permanente e exitosa do agro. Responsável pelo quinto item da pauta de exportações do segmento em 2025, o setor planta hoje em 10,5 milhões de hectares, além de conservar outros 7 milhões de hectares de mata nativa, território maior do que o Estado do Rio de Janeiro. Ao todo, foram US$ 15 bilhões em produtos de base florestal enviados ao exterior no ano passado, entre celulose, diferentes tipos de papel e painéis de madeira.
As plantações de árvores têm se expandido sobre áreas antropizadas, geralmente substituindo pastos improdutivos, a partir de um modelo de manejo sustentável reconhecido internacionalmente, que leva o nome de mosaicos florestais. Nos mosaicos, árvores plantadas são intercaladas com florestas nativas, formando corredores ecológicos que garantem os serviços ecossistêmicos e protegem a fauna e a flora. O setor planta 1,8 milhão de árvores por dia que, no ciclo de crescimento, capturam e armazenam gás carbônico da atmosfera, auxiliando na agenda do clima.
Os produtos desenvolvidos por essa indústria são utilizados por mais de 2 milhões de planetários, além de serem uma alternativa sustentável aos de origem fóssil. Entre os inúmeros bioprodutos fornecidos, estão copos e canudos de papel, embalagens de papelão, lenços umedecidos, papel higiênico, além de outros menos conhecidos, como é o caso da viscose, utilizada pela indústria têxtil, para não citar múltiplos outros.
A realidade é que, em meio século, o Brasil passou de importador de alimentos a fornecedor global, reunindo condições únicas para ampliar sua participação nesse mercado. E isso será possível sem desmatamento, mas com a modernização de milhares de propriedades rurais e o cultivo sobre terras já degradadas.
A nossa história econômica recente tem outros excelentes exemplos do Brasil que deu certo, apostando em pesquisa e inovação. Poderia citar nossa aeronáutica, com a Embraer, a WEG Motores, a exploração de petróleo em águas profundas e a mineração. Juntamente com o agronegócio, formam um cenário de vanguarda produtiva que, além de promover prosperidade econômica e social, tem o potencial de inspirar outros movimentos, nos respectivos setores e para além deles.
Em 2025, mostramos nossa capacidade de trabalhar frente a grandes desafios, porém restam muitos outros, e mais antigos, a serem superados para atingirmos nosso potencial. Se fizermos corretamente a lição de casa, nos inspirarmos nos bons exemplos e aprendermos com os erros do passado, interrompendo nossa insistente tradição de repeti-los, poderemos chegar ao extraordinário futuro que hoje, em meio à tormenta, já é possível vislumbrar em função de importantes e paradigmáticas conquistas no presente (Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá, membro do Conselho Consultivo do RenovaBR, foi governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018); Estadão, 3/2/26)

