13/01/2026

O "cofre" da Venezuela e o celular do fim do mundo - Por Paula Sousa

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“Cofre do apocalipse” no Ártico para onde mais de 100 países enviam sementes para decifrar o futuro da vida na Terra. Foto IA + Adobe PS

 

A geopolítica é uma ciência fascinante, mas no Brasil de 2026, ela parece mais um roteiro de filme nacional de qualidade duvidosa. Recentemente, tive a honra de ver minha tese citada pelo mestre do jornalismo Fernão Lara Mesquita. Ele citou um ponto central: A ideia de que a Venezuela não é exatamente um país, mas sim o "Banco Central do Foro de São Paulo".

 

Segundo Fernão, em análise que ecoou o que escrevi, a elite do poder brasileiro — personificada na simbiose entre Joesley Batista e Daniel Vorcaro — acreditou que poderia transformar a ditadura de Maduro em seu cofrinho particular. O plano era de uma simplicidade assustadora: injeta-se dinheiro brasileiro na Venezuela hoje, via investimentos "estratégicos", e esse capital retorna "limpinho" e devidamente lubrificado para as eleições de 2026. Só esqueceram de combinar com o “xerife lá de cima”: Donald Trump.

 

O triângulo amoroso: Precatórios, petróleo e sigilo

 

Como bem revelou Lauro Jardim, n'O Globo, Joesley Batista e Daniel Vorcaro não cruzaram a fronteira apenas para tomar um cafezinho e comer um bolo com o ditador. A J&F e o ex-dono do Master já despejaram centenas de milhões de dólares em poços de petróleo venezuelanos — um investimento que cheira mais a enxofre do que a óleo bruto.

 

E, mais rápido do que se pode dizer 'Ouro Negro', o Itamaraty correu para passar o cadeado nos documentos dessa 'diplomacia de compadrio', impondo um sigilo de cinco anos sobre os telegramas. Ora, se o negócio é tão legítimo e próspero para o Brasil, por que tanto pânico de que esses papéis venham a público? O segredo não protege o Estado; protege os sócios.

 

A explicação, sugerida na análise de Fernão, é que “supostamente” o Banco Master funciona como uma ponte entre o orçamento público brasileiro e o solo venezuelano. O governo paga precatórios, o banco cresce, e os dólares fluem para Maduro. É a "lavanderia internacional" perfeita, onde o lucro do petróleo de hoje financia o poder de amanhã.

 

O celular do juízo final e o "chanceler fantasma"

 

Enquanto o dinheiro flui, a proteção em Brasília precisa ser total. Mas a casa começou a cair. O advogado André Marsiglia trouxe à tona o pânico que tomou conta da capital com o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro. Dizem que ali reside a "chave do país": conversas, nomes de autoridades e registros de festas que fariam o imperador Calígula dizer: “Gente, pega leve”.

 

A pergunta que não quer calar, baseada no que Marsiglia analisou: Vorcaro e Toffoli estão envolvidos? De acordo com a Folha de S.Paulo, empresas de parentes do ministro Dias Toffoli tiveram como sócio o Fundo Arleen.

 

E aqui que começa a ficar interessante e sombrio: esse fundo exclusivo (com apenas um cotista misterioso) é gerido pela REAG, a mesma gestora conectada ao Banco Master e a investigações de lavagem de dinheiro.

 

Seria coincidência que Toffoli tenha imposto sigilos eternos sobre as relações entre o Master e o INSS? Ou que ele tenha ordenado uma "careação" inútil após pegar carona num jatinho para curtir uma “pelada” entre amigos? Só estou perguntando.

 

Joesley: De magnata do bife a mensageiro de Trump?

 

A situação de Joesley Batista é ainda mais irônica. Uma matéria de Malu Gaspar, n'O Globo, revelou que o dono da J&F está com uma "dor de cabeça" do tamanho do Godzilla. Joesley teria investido em poços de petróleo que o chavismo roubou da americana ConocoPhillips. Com a volta de Trump, o chefão avisou: o petróleo vai voltar para os donos originais. E sabemos que Trump não costuma falar duas vezes.

 

Tentando salvar a própria pele Joesley agiu como um "chanceler não oficial", segundo o Washington Post. Ele voou até Caracas para oferecer a Maduro um asilo na Turquia. Imaginem a cena: um empresário com um passado bem duvidoso, negociando o destino de um ditador e os interesses estratégicos dos EUA e do Brasil.

 

Lula teria oferecido Joesley como moeda de troca para Trump aliviar sanções e tarifas? Se foi isso, o tiro saiu pela culatra: Maduro recusou e Trump não parece disposto a dar descontos para "mensageiros" com histórico mais sujo que pau de galinheiro.

 

Será que teremos o retorno da Magnitsky?

 

O cheiro de queimado: PCC e a Operação Carbono Oculto

 

Esse esquema não depende exclusivamente do petróleo venezuelano. O dinheiro que sustenta essa máquina tem origens domésticas e sombrias. A Receita Federal desencadeou a Operação Carbono Oculto, que, segundo o site da instituição, revelou uma entrega de R$ 52 bilhões em mil postos de gasolina.

 

Conforme detalhado pelo Valor Econômico e por Luís Nassif, o esquema envolve a utilização de fundos e títulos podres do antigo banco BESC pelo Banco Master e pela REAG para gerar lucros artificiais. Qual é a suspeita das autoridades? Lavagem de dinheiro para a turminha gente boa do PCC.

 

Em uma rara ocasião de resistência técnica, o Banco Central restringiu a captação do Master para identificar que se tratava de um esquema Ponzi. Isso esclarece o profundo desprezo de que o governo e seus influenciadores remunerados (supostamente pagos com R$ 2 milhões por Vorcaro para realizar ataques virtuais) têm em relação à independência do BC. Eles não querem estabilidade econômica; eles precisam de liquidez para manter a pirâmide em pé.

 

O colapso das cartas

 

O castelo de cartas para 2026 se sustentava em dois pilares: uma Venezuela segura e um Banco Master preservado. Atualmente, o cenário é de terra arrasada. Com Maduro e a esposa em "férias forçadas" em Nova York e Joesley exposto como um possível receptador de bens americanos, o pânico mudou de lugar. Para agravar a situação em Brasília, o celular de Vorcaro — que Fernão Lara Mesquita já chamou de 'Jeffrey Epstein brasileiro' — permanece como uma bomba-relógio no colo da Polícia Federal.

 

Se as paredes do resort da família Toffoli pudessem falar, ou se o "cotista único" do Fundo Arleen fosse exposto, talvez descobríssemos que o Brasil não é governado por ideologias, mas por uma planilha de fundos exclusivos e ligações com o crime organizado.

 

O plano para 2026 desmoronou. Trump não apenas recuperou o petróleo; ele expôs a fiação exposta de um sistema que utiliza o orçamento brasileiro para alimentar ditaduras e o crime, esperando receber o troco em votos e poder. A festa acabou, e os ratos começaram a pular do barco. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 13/1/2026)