O cooperativismo paulista crescia, e os números já contavam essa história
Por Rodrigo Simões
Dos trabalhos no Vale do Paraíba ao crescimento das cooperativas e de seus associados, os registros de 1939 revelam um movimento que ganhava organização, representatividade e força no interior paulista.
A história do cooperativismo paulista não foi construída apenas por grandes decisões, lideranças ou acontecimentos isolados. Ela também nasceu do trabalho cotidiano, da orientação aos produtores, da organização de novas sociedades e, sobretudo, da confiança de milhares de pessoas que passaram a acreditar na força da cooperação.
É justamente essa realidade que encontramos nas páginas do relatório de 1939 do Departamento de Assistência ao Cooperativismo, documento histórico que integra o trabalho de Otacílio Tomanik e que continua oferecendo importantes referências para compreender a formação do cooperativismo no Estado de São Paulo.
Os registros revelam um movimento que não apenas se consolidava, mas também ampliava sua presença regional, conquistava novos associados e estruturava suas atividades.
No Vale do Paraíba, por exemplo, a organização cooperativista começava a apresentar resultados concretos.
A Inspetoria dos Serviços de Cooperativismo do Vale do Paraíba, criada em 1938, iniciou suas atividades no começo de 1939. Sua missão não se limitava à fiscalização das cooperativas existentes. O trabalho envolvia orientação, divulgação dos princípios cooperativistas e preparação de pessoas para a constituição de novas sociedades.
O relatório registra que todas as cooperativas em funcionamento naquela região foram inspecionadas e orientadas para o cumprimento das finalidades que motivaram sua criação.
Mais do que acompanhar instituições, buscava-se fortalecer uma cultura de organização coletiva.
E os primeiros resultados apareceram.
Na cidade de São Bento do Sapucaí, três novas cooperativas já haviam sido constituídas. O documento também apontava a perspectiva de criação de outras sociedades em 1940, resultado das atividades desenvolvidas pela Inspetoria, então sediada em Taubaté.
Era o cooperativismo chegando mais perto das comunidades, estimulando iniciativas locais e criando oportunidades de desenvolvimento regional.
UM MOVIMENTO QUE GANHAVA DIMENSÃO ESTADUAL
O panorama apresentado no relatório de 1939 permite compreender que o crescimento não estava restrito ao Vale do Paraíba.
O Departamento de Assistência ao Cooperativismo acompanhava a evolução das sociedades cooperativas em diferentes regiões paulistas, registrando suas atividades, dificuldades, avanços e perspectivas.
Os gráficos comparativos incluídos no documento são particularmente reveladores.
Em 1938, o cooperativismo paulista reunia 45.120 associados. No ano seguinte, esse número alcançava 52.268 associados.
Um crescimento de 7.148 pessoas em apenas um ano, aproximadamente 15,8%.
O número de cooperativas também avançou. Segundo o gráfico original, o Estado passou de 112 cooperativas em 1938 para 156 em 1939.
Foram 44 sociedades a mais, uma expansão de aproximadamente 39,3%.
Esses números ajudam a dimensionar um período em que o cooperativismo ampliava sua presença na economia paulista.
Mas os registros históricos também deixam uma mensagem importante: crescer exigia organização.
A ampliação do número de sociedades e associados precisava ser acompanhada por orientação técnica, fiscalização, formação de lideranças e respeito aos princípios cooperativistas.
Era justamente nesse conjunto de responsabilidades que se concentrava o trabalho do Departamento de Assistência ao Cooperativismo.
O PASSADO QUE DIALOGA COM O PRESENTE
Quase nove décadas depois, os desafios assumiram novas dimensões, mas muitos dos princípios continuam atuais.
O Cooperativismo moderno dispõe de tecnologias, instrumentos de gestão, mecanismos de financiamento e estruturas de comercialização que seriam inimagináveis naquele período.
Entretanto, sua essência permanece vinculada à união de pessoas em torno de objetivos comuns.
O que os registros de 1939 demonstram é que o fortalecimento do cooperativismo paulista não aconteceu por acaso. Foi resultado de planejamento, orientação, acompanhamento institucional e participação crescente da sociedade.
Ao preservar esses acontecimentos, o trabalho histórico de Otacílio Tomanik nos permite enxergar muito além dos números.
Permite compreender que, por trás de cada cooperativa criada, havia pessoas, expectativas, desafios e a convicção de que trabalhar em conjunto poderia produzir resultados melhores.
O Vale do Paraíba representava uma parte desse movimento. Os gráficos estaduais mostravam sua dimensão. E o relatório de 1939 registrava uma transformação que ganhava espaço no território paulista.
Porque a história do cooperativismo não é feita apenas de instituições. É construída, sobretudo, pelas pessoas que acreditam na força da união.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 16/10/26)

