24/03/2026

O fim da era papudinha? – Por Paula Sousa

O fim da era papudinha? – Por Paula Sousa

Ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto de Pedro Ladeira  Reprodução Jornal Opção

 

A política brasileira acaba de sofrer um abalo sísmico que deixou a esquerda ainda mais desesperada. O que parecia impossível há alguns meses está prestes a acontecer: Jair Bolsonaro vai para casa. O anúncio não veio de um aliado fervoroso, mas sim de uma peça-chave do Poder Judiciário, o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Em uma manifestação que pegou muitos de surpresa, Gonet recomendou a transição do ex-presidente para a prisão domiciliar, sinalizando que os ventos em Brasília mudaram de direção.

 

O alerta vermelho na saúde

 

Para entender esse movimento, é preciso olhar para o que aconteceu nos bastidores do Hospital DF Star. Fontes da grande mídia, como o G1 e a Folha de S.Paulo, já vinham monitorando o estado de saúde de Bolsonaro: uma broncoaspiração que evoluiu para uma pneumonia severa e complicações renais.

 

Segundo o parecer de Gonet, a "evolução clínica" apresentada pela equipe médica não deixa margem para dúvidas: o ambiente carcerário — mesmo no 19º BPM, a "Papudinha" — não oferece mais as condições necessárias para a sobrevivência do ex-presidente. Relatos médicos indicam que, se o socorro tivesse demorado apenas mais duas horas, o desfecho poderia ter sido fatal. Aos 71 anos e com o histórico de cirurgias abdominais decorrentes da facada de 2018, o organismo de Bolsonaro chegou ao limite.

 

O "X" da questão: O acordo com Moraes

 

Mas na capital federal, nada é apenas biológico; tudo é político. A recomendação da PGR é vista por analistas como a peça final de um quebra-cabeça montado entre o senador Flávio Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes. O "01" teria se reunido com o magistrado para costurar uma saída que evitasse o pior cenário para ambos os lados.

 

Por que Moraes, conhecido pelo rigor, cederia agora? A resposta reside no medo. Existe um temor latente tanto no STF quanto no governo Lula de que Bolsonaro se torne um mártir. Uma eventual morte sob custódia do Estado inflamaria as ruas e daria um combustível eleitoral imparável para a direita. Para o Judiciário, manter Bolsonaro vivo e em casa é uma forma de "baixar a temperatura" de um país que ferve sob escândalos de corrupção, tensões institucionais e crises econômicas.

 

A vitória estratégica de Flávio Bolsonaro

 

Se Bolsonaro em casa é um alívio para a família, para Flávio é um troféu político. Ao conseguir a domiciliar para o pai, o senador se consolida como o grande articulador da direita.

 

Essa movimentação esvazia a pressão por outros nomes. Enquanto a "isentoesfera" ainda esperava que Tarcísio de Freitas renunciasse para disputar a presidência — apesar de o governador declarar repetidamente que tentará a reeleição em São Paulo —, o prazo de abril se aproxima sem sinais de saída. Com governadores como Zema (MG) e Cláudio Castro (RJ) já deixando seus cargos para focar em 2026, o silêncio de Tarcísio afirma que o caminho será pavimentado para o próprio Flávio.

 

"A verdade é que algum acordo houve. O fato de Moraes pedir o parecer e Gonet — que é do círculo próximo de Gilmar Mendes — aceitar, mostra que a engrenagem girou."

 

O PL da Dosimetria: O próximo round

 

O acordo, porém, pode ser ainda mais profundo. No horizonte, aparece o PL da Dosimetria. Vetado pelo presidente Lula, essa projeto-de-lei é a esperança para centenas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, como a "Débora do Batom". Pessoas que receberam penas de 14 a 17 anos por vandalismo — punições maiores do que muitos casos de homicídio no Brasil — poderiam ser beneficiadas com a progressão de regime.

 

Se o Congresso derrubar o veto de Lula nos próximos dias, Flávio Bolsonaro marcará um "2 a 0" histórico: tira o pai da cadeia e liberta os inocentes que se sentiam abandonados. Seria a prova definitiva de que ele aprendeu a jogar o jogo de Brasília melhor do que qualquer um imaginava.

 

O futuro no horizonte

 

A saída de Bolsonaro do hospital diretamente para sua residência, prevista para ocorrer após o dia 27 de março, marca o início de uma nova fase. Em casa, o ex-presidente terá liberdade para articular, receber aliados e influenciar as eleições municipais e presidenciais com uma energia que a prisão lhe tirava.

 

Para a esquerda, resta o temor de que a "moderação" de Flávio seja apenas uma máscara para um retorno triunfal do bolsonarismo. Para o Judiciário, é a tentativa de limpar a imagem de perseguição e retomar a normalidade. E para Bolsonaro? É a chance de respirar fora das grades, ainda que monitorado, enquanto observa seus adversários tentarem conter a onda que ele mesmo criou.

 

O tabuleiro foi reiniciado. E as peças pretas acabam de fazer um movimento mestre. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 24/3/2026)