17/02/2026

O Fim do Encanto: Lula e o Crepúsculo do PT – Por Paula Sousa

Reprodução charge Gazeta do Povo

O cenário político brasileiro parece estar diante de um fenômeno de "déjà vu" reverso. Se em 2002 a esperança venceu o medo, em 2026 o cansaço parece estar vencendo a narrativa. O que se viu recentemente na Sapucaí, com o desfile da Acadêmico de Niterói, não foi apenas uma homenagem cultural, mas, para muitos observadores, uma peça de propaganda eleitoral antecipada tão ruidosa quanto desesperada. Entre estrelas vermelhas, jingles implícitos e o número 13 desfilando em horário nobre, o que emerge não é a força de um governo, mas o sintoma de sua exaustão.

 

A Sapucaí como panteão da sobrevivência

 

A estratégia de utilizar o Carnaval como palanque levanta questões jurídicas e políticas profundas. A denúncia de que o próprio Planalto teria influenciado na escolha do ator para interpretar o presidente e que houve reuniões prévias com carnavalescos sugere um nível de coordenação que ultrapassa a espontaneidade artística. A pergunta que ecoa nos bastidores de Brasília é: por que tamanha exposição?

 

A resposta residi na ausência de entregas reais. Após quase quatro anos de mandato, o terceiro ciclo de Lula é marcado por uma economia que não decola para o cidadão comum, uma criminalidade que atinge picos alarmantes e o retorno de sombras de escândalos de corrupção que o brasileiro julgava ter deixado no passado. Sem números positivos para apresentar no PIB ou na segurança pública, o governo refugia-se na única tática que ainda conhece: a polarização e o ataque sistemático a Jair Bolsonaro.

 

O teto de vidro e o declínio matemático

 

Os dados, no entanto, são implacáveis. Como apontado em análises que repercutem números da Quaest, o "teto" eleitoral de Lula está encolhendo. A trajetória é descendente e didática: dos expressivos 61% de votos no segundo turno em 2002, o petismo viu sua margem minguar eleição após eleição, chegando aos apertadíssimos 50,9% em 2022. Atualmente, a média de diversos institutos de pesquisa indica um teto próximo aos 42%.

 

Este declínio reflete um "desgaste de material". O eleitor de centro e o jovem que busca renovação já não compram o discurso do "Lula antissistema". Hoje, ele é a personificação do sistema que ocupa o poder há décadas. A narrativa de que o Brasil voltaria a ser um mar de prosperidade esbarrou na realidade de uma gestão engessada, que prioriza a manutenção de privilégios e a narrativa ideológica em detrimento da eficiência administrativa.

 

A solidão do poder e a inveja das lideranças

 

Uma das críticas mais contundentes a Lula reside na sua incapacidade — ou falta de vontade — de criar sucessores. No melhor estilo de lideranças autoritárias do século XX, Lula parece enxergar qualquer liderança ascendente em seu campo como uma ameaça pessoal.

 

Nomes como Fernando Haddad e Geraldo Alckmin são constantemente "fritados" ou colocados em situações de desgaste proposital.

O Estadão chegou a mencionar o "enredo de lealdade ameaçada" no camarote da Sapucaí, evidenciando que o vice-presidente corre o risco de ser escanteado. Já a CNN destaca o temor de alas do PT com novas derrotas de Haddad. Lula, em seu egocentrismo político, não preparou ninguém para passar o bastão. Ele é o começo e o fim do seu próprio movimento, o que deixa a esquerda em um vácuo desesperador diante de uma direita que aprendeu a se multiplicar.

 

Em contraste, o fenômeno Bolsonaro provou ser resiliente e fértil. Mesmo sob intensa perseguição e tentativas de destruição de sua imagem "nos corações das pessoas", o ex-presidente logrou êxito em projetar novas figuras. Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro são exemplos que herdaram o capital político da direita. E, no topo dessa lista de renovação, surge o nome de Flávio Bolsonaro.

 

Flávio Bolsonaro: O herdeiro do espaço político

 

A possibilidade de Lula enfrentar Flávio Bolsonaro em um segundo turno é o maior pesadelo dos estrategistas petistas. Flávio carrega o DNA político do pai, mas com uma articulação parlamentar e uma postura que podem atrair o eleitorado de centro que se cansou da retórica mofada de Lula. A matemática do segundo turno favorece o nome da oposição: em um cenário onde Lula não vença no primeiro turno, a tendência natural é que os votos de todos os outros candidatos de centro-direita se aglutinem contra o PT, devido à altíssima rejeição do atual mandatário.

 

Para um líder que se considera o "pai dos pobres" e o "salvador da democracia", ser derrotado nas urnas pelo filho do seu maior rival seria uma humilhação histórica insuportável. É aqui que entra a hipótese da inelegibilidade proposital.

 

A estratégia da "saída honrosa"

 

Diante da percepção de que a derrota é um cenário provável, provocar o TSE para ser declarado inelegível pode ser a última jogada de Lula. Se for impedido de concorrer, ele mantém a narrativa do "perseguido", do líder que foi parado pelo "sistema" ou pelo "judiciário" (mesmo que este hoje o favoreça). É uma saída muito mais "honrosa" para o ego comunista do que ver o painel da apuração consolidar a vitória de um Bolsonaro.

 

O uso descarado da Sapucaí como comício antecipado pode ter sido o "isca" perfeita. Ao esticar a corda da legalidade eleitoral, Lula coloca o TSE em uma saia justa: ou o tribunal ignora a lei, provando que existe uma justiça de dois pesos e duas medidas em relação ao que foi feito com Bolsonaro, ou o torna inelegível, entregando-lhe o papel de mártir que ele tanto almeja para esconder sua incompetência administrativa.

 

Conclusão: O povo cansou

 

O Brasil de 2026 não é o de 2003. A descentralização da informação impediu que o monopólio da narrativa permanecesse nas mãos de poucos. O cidadão que vai ao supermercado e vê o preço dos alimentos, ou o pai de família que teme pela segurança do filho diante da criminalidade crescente, não se deixa convencer por desfiles ou discursos sobre o passado.

 

A incapacidade de Lula de governar para o futuro, somada ao seu isolamento político e à falta de um projeto econômico sólido, pavimentou o caminho para a sua própria obsolescência. O "pinguço corrupto", termo que ecoa nas redes e nas ruas como símbolo de desaprovação, já não tem o brilho de outrora. O povo cansou do PT.

 

E se a única coisa que resta ao governo é bater em Bolsonaro, é sinal de que o governo, na prática, já acabou. Resta saber apenas como será o último ato: se nas urnas, através de uma derrota acachapante para Flávio, ou nos tribunais, em uma fuga estratégica para o vitimismo (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 17/2/2026