23/01/2026

O juiz reprovado, o resort e o rombo de bilhões – Por Paula Sousa

Foto Reprodução Facebook

 

O Brasil é, sem dúvida, o país onde a realidade gosta de humilhar a ficção. Imagine a cena: um resort de luxo, digno de cinema, com seis estrelas e cozinha de padrão europeu. Agora, imagine que a sede da empresa que era dona de parte desse paraíso é uma casinha com a pintura rachada e o piso quebrado no interior de São Paulo. Parece piada, mas é apenas o dia a dia da família do ministro Dias Toffoli, conforme revelado por uma série de reportagens bombásticas do Estadão e do portal Metrópoles.

Imagem Reprodução Blog Jornal da Cidade

 

Para entender como chegamos aqui, precisamos voltar no tempo. Dias Toffoli nem sempre vestiu a capa preta do Supremo Tribunal Federal (STF). Antes da glória, ele era apenas um advogado com um currículo, digamos, modesto. Ficou famoso por um detalhe que ele certamente adoraria apagar da Wikipédia: foi reprovado duas vezes no concurso para juiz de primeira instância.

 

Sim, o homem que hoje dá a palavra final sobre a Constituição não conseguiu passar na prova para ser um juiz comum (As reprovações ocorreram em 1994 e 1995). Mas, como diz o ditado, quem tem padrinho não morre pagão. E o padrinho de Toffoli era ninguém menos que José Dirceu, o todo-poderoso "guru" do PT, que o carregou para o centro do poder.

 

Dali para o STF foi um pulo, e o resto é história. Ou caso de polícia?

 

A mansão de papel e os "laranjas" de família

 

A investigação do Estadão foi até Marília (SP) procurar a sede da Maridt Participações, empresa dos irmãos de Toffoli que chegou a ter um terço do resort Tayayá. O que encontraram não foi o que esperavam. A sede é a casa de José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro. O imóvel, financiado em 25 anos, tem sinais claros de deterioração. A cunhada do ministro, Cássia Pires Toffoli, ao ser questionada, entregou o jogo com uma frase que deveria entrar para os anais da justiça brasileira: “Sócio? Olha minha casa! Eu não tenho nem dinheiro para arrumar as coisas”.

 

Enquanto a cunhada reclama da falta de dinheiro para o reboco, a empresa registrada ali vendia participações milionárias em um resort de luxo. Em 2021, os irmãos Toffoli venderam parte do negócio por R$ 6,6 milhões para um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Coincidentemente (ou não), Toffoli é o relator no STF de um inquérito que envolve justamente o Banco Master e a Reag Investimentos. É o tipo de coincidência que só acontece com quem tem muita sorte ou amigos muito generosos.

 

E não para por aí. Outro irmão, José Carlos, o "Padre", também aparecia como sócio da Maridt. Segundo apurado pelos jornalistas, o padre foi exonerado de sua paróquia em 2021 porque os fiéis e a diocese descobriram que o padre era, nas horas vagas, dono de um empreendimento que incluía até cassino. É a mistura perfeita de fé, lucro e falta de vergonha na cara.

 

O resort como escritório do "andar de cima"

 

Se você acha que Toffoli era apenas um "hóspede" no Tayayá, o portal Metrópoles publicou vídeos para refrescar sua memória. Imagens de janeiro de 2023 mostram o ministro, de bermuda e chinelos, recebendo o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, que chegava de helicóptero. Também estava lá o ex-senador Luiz Pastore (MDB). O clima era de festa: copos na mão, risadas e conversas "cabulosas" no heliponto.

 

O ministro passou nada menos que 168 dias no resort fazendo reuniões com banqueiros e políticos. E adivinha quem pagou as despesas dessas reuniões no resort? Sim, isso mesmo que você pensou. Foi pago com dinheiro público, nossos impostos. O Tayayá não era um local de férias; era uma embaixada paralela onde o destino do Brasil era decidido entre um drink e outro. Enquanto isso, o atual dono formal do resort é Paulo Humberto Barbosa, advogado que já defendeu a J&F/JBS. Curioso, não? Toffoli recentemente suspendeu multas bilionárias da J&F da época da Lava-Jato. É o famoso "uma mão lava a outra, e as duas lavam o resort"?

 

O colapso bancário: A conta chega para você

 

Mas por que você, que não tem resort e mal consegue pagar o financiamento da sua casa, deveria se preocupar com isso? Porque esse "jogo de compadres" tem um preço, e ele está sendo cobrado do sistema financeiro nacional.

 

O Banco Master, que comprou as fatias da família Toffoli, está no centro de uma crise que ameaça outros bancos, como o Willbank e o BRB (Banco de Brasília). Segundo o Estadão, o Master é acusado de vender R$ 12 bilhões em "créditos podres" e fraudulentos para o BRB. Não estamos falando apenas de pessoas que não pagaram suas dívidas; a suspeita é de empréstimos inventados, falsificados, que simplesmente não existem.

 

O resultado? As ações do BRB derreteram. E adivinhe quem perde com isso? Os servidores públicos de Brasília, já que o fundo de previdência deles está lotado de ações desse banco. Enquanto o ministro relaxa no resort, o futuro da aposentadoria de milhares de trabalhadores está sendo jogado no lixo.

 

Para evitar um quebra-quebra geral, os grandes bancos (Itaú, Bradesco, etc.) tiveram que injetar R$ 30 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O Banco Master usava a garantia do FGC como propaganda: "Invista aqui com juros altos, se a gente quebrar, o FGC paga". É a farra perfeita: o banqueiro arrisca o dinheiro dos outros, ganha milhões e, se der errado, o sistema (ou seja, você) paga a conta.

 

Natal com dinheiro público

 

Como se não bastasse o escândalo do resort e do banco, Toffoli resolveu dar um "presente de Natal" para seus amigos. Em dezembro, ele ordenou, de forma monocrática e urgente, a liberação de R$ 200 milhões em honorários para a entidade Nupec, que presta serviços à prefeitura de São Sebastião (SP).

 

O detalhe? O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) tinha bloqueado esse dinheiro por considerar o contrato ilegal. O TJ-SP afirmou que a Nupec não é um escritório de advocacia registrado na OAB e que servia apenas como ponte para repassar dinheiro a escritórios de parentes de outros ministros.

 

Toffoli não quis saber de instâncias inferiores. Em pleno recesso judiciário, mandou liberar o dinheiro "imediatamente", atropelando o Ministério Público e o TJ-SP. O Ministério Público e o ex-presidente do Tribunal de Ética da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, Carlos Kauffmann, discordaram de tal visão e chegaram a protestar e a se manifestar, dizendo que a ordem de Toffoli mencionava coisas que nem tinham sido pedidas, mas teve que obedecer.

 

O "follow the money": Para onde foi o dinheiro?

 

A pergunta que não quer calar: como uma família de irmãos com profissões comuns e casas simples movimenta tanta grana? Há denúncias de que mais de R$ 30 milhões foram enviados para as Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. Se isso for verdade, não estamos falando apenas de ética, mas de lavagem de dinheiro em escala industrial.

 

A Receita Federal parece estar dormindo, e o Senado, liderado por Davi Alcolumbre se recusa a agir. O pacto de proteção em Brasília é mais forte que o cheiro de café fresco.

 

Por que estão queimando Toffoli?

 

Depois de anos sendo o "amigo do amigo do meu pai", como era chamado em documentos da Odebrecht, o castelo de Toffoli está sofrendo abalos sísmicos. As provas estão por todos os lados: na casinha rachada de Marília, no helicóptero do BTG Pactual, nos bilhões fraudulentos do Banco Master e na exoneração do irmão padre.

 

O que mudou? Por que agora essas informações estão vindo à tona com tanta força? Por que o Estadão e o Metrópoles estão com tanta munição?

Resta a dúvida que paira sobre Brasília: Quem quer a cabeça de Toffoli? Quem decidiu que o ministro se tornou um peso morto e o entregou aos leões?

 

Pode ter sido o próprio sistema, que após usá-lo para limpar a sujeira da Lava-Jato e bater na oposição, agora precisa de um sacrifício para fingir que a justiça funciona. Pode ser uma briga interna no "andar de cima", onde o banquete ficou pequeno para tantos convidados. Ou a vingança de Lula contra aqueles que votaram pela sua prisão.

 

Seja como for, a história de Dias Toffoli é o resumo do Brasil: um advogado que não passou no concurso, mas que subiu ao topo carregado por políticos corruptos, para criar um império de sombras que agora ameaça quebrar o sistema financeiro do País. Enquanto o povo discute BBB26, os verdadeiros donos do poder tomam vinho no resort, pagos com o seu suor.

 

O castelo de cartas está balançando. A pergunta é: quem vai dar o último sopro? (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 23/1/26)