04/03/2026

O peso do fator Lulinha – Por Elio Gaspari

O peso do fator Lulinha – Por Elio Gaspari

Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Foto Nelson Almeida AFP

 

  • O filho do presidente virou um personagem radioativo
  • Recorrer contra as decisões de quebra de sigilos terá um efeito tóxico para o eleitorado
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Os repórteres Luiz Vassallo e Aguirre Talento revelaram que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de 51 anos, reconheceu, em conversas particulares, que em 2024 viajou para Portugal com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Juntos visitaram uma fábrica de Cannabis para fins medicinais.

 

Lulinha decidiu revelar que fez essa viagem, cacifada pelo Careca, depois que a Polícia Federal pediu e o ministro André Mendonça, do STF, levantou o sigilo bancário de suas contas. O Careca do INSS está preso, por causa de suas conexões com a quadrilha que roubava descontos nos contracheques de milhares de aposentados.

 

O filho mais velho do presidente teria decidido abandonar o silêncio que cultiva há mais de 20 anos. Beleza, poderá explicar por que se sentiu atraído pela Cannabis medicinal e qual critério levou-o a acompanhar o Careca em sua prospecção portuguesa.

 

Como a eleição presidencial será em outubro, nos próximos sete meses, se ele não fizer isso, será um personagem radioativo na campanha.

 

Fábio Luís Lula da Silva padece na condição paradisíaca de filho do presidente. Registre-se que Lula tem cerca de 15 irmãos e meio-irmãos vivos. Poucas famílias de presidentes mantiveram-se tão longe do poder, mas coube a Lulinha o papel de para-raios.

 

Nos dois primeiros mandatos do pai, Lulinha conseguiu um financiamento benigno de uma telefônica. Nas fantasias da redes, ele era um milionário, dono de fazendas, vivendo numa mansão. Diplomado em biologia e tendo sido monitor do zoológico de São Paulo, diversificou suas atividades até que chegou à Cannabis medicinal e ao Careca do INSS. Isso no mundo dos fatos, na feira de maledicências, ele seria nada menos que um sócio oculto da JBS, empresa campeã no mercado de carnes.

 

Um ex-funcionário do Careca contou à Polícia Federal que eles seriam sócios, com Lulinha, o "filho do rapaz", recebendo jabaculês de R$ 300 mil mensais. A defesa de Lulinha repete que suas relações com o Careca do INSS nada tinham a ver com as falcatruas contra os aposentados. Elas seriam restritas à prospecção de um negócio com Cannabis medicinal. Parece muito dinheiro.

 

Se Lulinha quer se livrar da condição de personalidade predileta para a disseminação de notícias falsas, o melhor que ele tem a fazer é livrar-se de todos os seus sigilos. Lula já disse, referindo-se às roubalheiras do INSS, que "se tiver filho meu metido nisso, será investigado".

 

Fábio Luís Lula da Silva teria admitido que o Careca pagou as contas da viagem a Lisboa. Só? Março mal começou e esse ectoplasma acompanhará Lulinha e Lulão com intensidade cada vez maior. Recorrer contra as decisões que determinaram a quebra de sigilos terá um efeito anestésico para çábios metidos na campanha e tóxico para o eleitorado.

 

Olhando pelo retrovisor, Fábio Luís teria feito muito melhor negócio falando no final do ano passado, quando a oposição queria ouvi-lo na CPI do INSS. Àquela altura a sua radioatividade parecia baixa (Folha, 4/3/36)