30/09/2026

O poder dos sem poder – Por Luiz Felipe D’Ávila

O poder dos sem poder – Por Luiz Felipe D’Ávila

Foto Divulgação

Estamos às vésperas da eleição e o humor do brasileiro é de cansaço e desesperança com a corrupção, a violência, a impunidade e o desgoverno que assolam o País.

 

Nenhuma ditadura resiste à força da verdade. Essa é a conclusão do brilhante ensaio de Václav Havel, O poder dos sem poder. Ele escreveu o livro quando combatia a ditadura comunista na Checoslováquia. Após a queda do comunismo em 1989, Havel foi eleito presidente da República. As lições do livro são vitais para superarmos duas décadas de populismo no Brasil.

 

Primeira lição: as ditaduras só existem quando há consentimento do povo. Havel dá o exemplo dos pequenos comerciantes que colocavam todos os dias uma placa defronte à sua loja dizendo “trabalhadores, uni-vos”. Ninguém acreditava no slogan marxista, mas todos os comerciantes continuavam a colocá-lo para não criar problema com a ditadura. Uns exibiam a frase porque tinham medo da retaliação do governo; outros preferiam postá-la para manter o seu negócio e evitar ser chamado de inimigo do povo.

 

No Brasil, a maioria do eleitorado elegeu os desastrosos governos populistas argumentando que sua escolha representa o “mal menor”. A verdade é que a escolha do “mal menor” nos levou a eleger presidentes populistas, cujos governos debilitaram as nossas instituições democráticas, dinamitaram a confiança na lei e na Constituição e não fizeram nada para conter o crescimento da corrupção e do crime organizado. O Brasil tornou-se um país inseguro e ineficiente e a renda per capita do brasileiro caiu, em comparação com principais países emergentes.

 

Segunda lição: as ditaduras são desmascaradas quando as pessoas deixam de ser atores coadjuvantes da grande mentira que legitima a existência do regime. No dia em que um comerciante em Praga decidiu não colocar mais o aviso na vitrine da sua loja, ele denunciou a farsa do regime com a sua atitude. Sua recusa foi o primeiro ato de honestidade e de coragem que estimulou outras pessoas a repetirem o gesto até se criar uma onda de protesto que culminou com a publicação da Carta 77, um manifesto nacional após a prisão arbitrária de músicos críticos do regime.

 

No Brasil, após quase quatro anos de apatia cívica e de negacionismo coletivo, a imprensa e vários movimentos empresariais e da sociedade civil começaram a denunciar as mentiras dos governantes que vêm corroendo a liberdade individual, pisoteando a lei e a Constituição e destruindo a credibilidade das instituições democráticas.

 

Estamos às vésperas da eleição e o humor do brasileiro é de cansaço e desesperança com a corrupção, a violência, a impunidade e o desgoverno que assolam o País. Mas é um momento especial para usarmos o melhor instrumento que a democracia nos deu para mudar a realidade: o voto. Martin Luther King nos lembra que as “nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam”. Eleição importa muito, por isso vamos usar o voto para garantirmos quatro coisas essenciais.

 

Primeiro, expurgar do poder um presidente populista, cujo partido governou o País por mais de 20 anos e nos deixou uma democracia débil e instituições carcomidas pela corrupção, impunidade e arbitrariedade. O governo que prometeu picanha e cervejinha para o povo termina o mandato deixando o maior rombo fiscal da história, 83 milhões de brasileiros inadimplentes e um desastroso legado de corrupção, imoralidade e descrédito institucional, como atestam o escândalo do Banco Master, o roubo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o tráfico de influência do filho do presidente e sua sócia lobista pelos corredores do poder.

 

Segundo, vamos usar o voto para elegermos parlamentares comprometidos com as reformas institucionais. Temos de restabelecer a segurança jurídica e a responsabilidade fiscal; combater o crime organizado e tirar o Estado pesado, caro e ineficiente das costas do Brasil que produz, trabalha e empreende; abrir a economia e alavancar o potencial ambiental do País por meio da economia de mercado; dar um salto exponencial na melhoria da qualidade da educação básica para ressuscitar a mobilidade social e o ganho de produtividade.

 

Terceiro, temos de eleger um Senado comprometido com a reforma do Supremo Tribunal Federal (STF) e o impeachment de ministros que não têm condições morais para ocupar uma cadeira no STF. Precisamos de senadores que tratem as sabatinas para validar os novos integrantes da Suprema Corte com a seriedade de uma instituição que é corresponsável pela indicação de novos ministros, cuja missão será restaurar a dignidade, a confiança e a reputação do STF como guardião da Constituição.

 

Quarto, precisamos continuar elegendo uma boa safra de governadores para dar continuidade às políticas públicas baseadas em dados e evidências, cujos resultados melhoraram a vida das pessoas. Os Estados servem como um importante laboratório para testar políticas inovadoras e como freio e contrapeso às políticas insensatas do governo federal e do Congresso.

 

Se atingirmos esses quatro objetivos por meio do voto, vamos livrar o Brasil do populismo e começar a construir um país melhor. A eleição é a hora de decidirmos o Brasil que queremos (Estadão, 30/9/26)