O Visconde ficou sozinho no Sítio – Por Rodrigo Simões
Na eleição paulista para o Senado, quatro candidaturas disputam hoje o pelotão da frente enquanto Ricardo Salles tenta encontrar espaço para transformar sua candidatura em alternativa competitiva. Entre rompimentos e isolamento político, o ex-ministro enfrenta talvez o adversário mais difícil de uma campanha: os números.
O VISCONDE E AS URNAS
Monteiro Lobato jamais imaginaria o Sítio do Picapau Amarelo transformado em metáfora eleitoral.
Mas a política brasileira tem dessas coisas.
Nos bastidores, Ricardo Salles já recebeu comparações bem-humoradas com o Visconde de Sabugosa, personagem conhecido por sua erudição e por estar sempre disposto a apresentar uma explicação para os acontecimentos do Sítio.
A semelhança termina aí.
Porque eleição não se resolve com teoria.
Resolve-se com voto.
E os números recentes apresentam para Salles uma história bastante menos fantasiosa.
QUINTO LUGAR
O retrato mais recente é objetivo.
No Paraná Pesquisas divulgado nesta terça-feira, 22 de setembro, Ricardo Salles registra 10,6%.
Quinto colocado.
Não é um episódio isolado. No Datafolha de 11 de setembro, Salles marcou 5%, atrás dos mesmos quatro adversários. Na Quaest de 8 de setembro, teve 3%, também na quinta posição. E no Veritá divulgado dia 12, marcou 3,9%, novamente atrás do quarteto principal.
Pesquisa não é eleição.
Mas uma sequência de pesquisas é informação política que nenhum candidato pode simplesmente guardar na gaveta.
UM PERSONAGEM PROCURANDO SUA TURMA
Há ainda um componente visual interessante nessa campanha.
Salles construiu uma candidatura independente depois do rompimento com lideranças bolsonaristas. Derrite e André do Prado, por sua vez, integram a chapa associada ao governador Tarcísio de Freitas e ao campo que apoia Flávio Bolsonaro para a Presidência.
Essa diferença ajuda a explicar uma fotografia política evidente: enquanto alguns candidatos procuram apresentar ao eleitor um conjunto de alianças, Salles busca vender essencialmente a própria candidatura.
No Sítio, Visconde tinha Dona Benta, Narizinho, Pedrinho e Emília.
Na política, alianças também contam.
NEM O PÓ DE PIRLIMPIMPIM RESOLVE
Existe uma velha tentação eleitoral: acreditar que campanha começa de verdade apenas na reta final e que tudo pode mudar de uma hora para outra.
Pode mudar.
Mas milagre estatístico não deveria fazer parte de planejamento eleitoral.
Os institutos usam metodologias diferentes e os números não devem ser comparados como se fossem uma única série histórica.
Mas há uma constante: Salles permanece bem atrás de Derrite e André do Prado, candidaturas que hoje protagonizam a disputa.
Nem o pó de pirlimpimpim altera esse fato.
INGRATIDÃO AO PRESIDENTE BOLSONARO
Existe ainda uma questão política que acompanha Ricardo Salles.
Ele foi ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro e chegou à Câmara dos Deputados em 2022 associado politicamente ao bolsonarismo. Hoje, entretanto, disputa o Senado pelo Novo após romper com lideranças da Direita. A interpretação é de um verdadeiro caso de “ingratidão”.
Em política, fotografias antigas permanecem nos arquivos.
Alianças, não necessariamente.
HORA DE DESISTIR?
Aqui está a pergunta que certamente circulará com intensidade crescente caso os números permaneçam semelhantes:
Ricardo Salles deveria retirar sua candidatura?
Essa decisão pertence exclusivamente ao candidato, ao partido e, politicamente, aos seus eleitores.
Pesquisa não concede mandato antecipadamente e tampouco retira de alguém o direito de disputar.
Mas existe uma realidade que Salles terá de enfrentar: faltando poucos dias para a eleição, sua candidatura precisa explicar como pretende atravessar uma distância considerável até o grupo que disputa efetivamente as duas vagas.
É uma questão de estratégia, matemática eleitoral e tempo.
E tempo é justamente aquilo que uma campanha na reta final não consegue comprar.
O SÍTIO VAI ÀS URNAS
São Paulo escolherá dois senadores em 4 de outubro.
Hoje, Guilherme Derrite e André do Prado formam o bloco principal da disputa segundo o levantamento mais recente. Ricardo Salles não consegue romper essa configuração.
Ele tem todo o direito de permanecer candidato.
Seus adversários têm todo o direito de questionar a utilidade política dessa permanência.
E seus apoiadores têm todo o direito de acreditar numa recuperação.
Mas nenhuma dessas opiniões modifica o dado central desta reta final:
por enquanto, o Visconde está longe da turma da frente.
No Sítio do Picapau Amarelo, quase tudo podia acontecer.
Na eleição, porém, não existe literatura fantástica.
Existe urna.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 24/9/26)

