O xadrez real: Alcolumbre é herói ou vilão? – Por Paula Sousa
Alcolumbre Foto Reprodução Blog Gazeta do Povo (Foto Andressa Anholete-Agência Senado)
O Brasil assistiu, nos últimos dias, a um espetáculo de desidratação política que faria qualquer uva passa sentir inveja. O governo Lula 3, que entrou em campo prometendo o "amor" e a reconstrução, descobriu que o Congresso Nacional não está para romance — está para negócios. E no centro desse turbilhão, surge a figura de Davi Alcolumbre, o senador que se tornou o nosso "malvado favorito" (por enquanto), provando que, no Planalto, o ditado "mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda" é a única regra de ouro que realmente vale.
O fantasma do Messias e o veto atropelado
A temperatura ferveu quando o Senado, em um gesto de rebeldia que não se via há décadas, impôs derrotas humilhantes ao Executivo. Primeiro, a indicação de Messias para o STF foi para o ralo. Depois, o veto presidencial sobre a dosimetria de penas foi derrubado como um castelo de cartas. A Folha de S. Paulo não mediu palavras: "Veto a Messias marca Executivo ainda mais fraco após avanço do Congresso em cargos e emendas".
Mas espera aí: a esquerda correu para os teclados para gritar "golpe parlamentar!". Ora, vamos ser realistas. O Congresso é, por definição constitucional, a voz do povo. Se o governo está perdendo lá dentro, o problema não é o "golpe", é a falta de sintonia. Lula parece estar tentando usar um controle remoto de 2003 em uma Smart TV de 2026. As pilhas estão gastas e o software do sistema mudou.
No passado (Lula 1 e 2), a engrenagem girava à base de óleo lubrificante financeiro direto. O Mensalão era o Pix da época: dinheiro na conta e voto no painel. Quando o esquema ruiu, veio o "Lula 2" com as emendas liberadas a dedo. Se você votasse com o "pai dos pobres", sua ponte saía; se não, sua cidade continuava no barro.
A revolução do orçamento secreto e a direita ideológica
O que mudou? O jogo virou em 2019. O governo Bolsonaro, criticado por muitos, entregou ao Parlamento uma arma de independência: o orçamento secreto. Embora a mídia e a esquerda tenham chorado pitangas, o resultado prático foi um ganho enorme de autonomia para os congressistas. Agora, o parlamentar propõe a emenda e o presidente é obrigado a pagar sem saber exatamente quem é o dono da fatia. O chicote do Executivo perdeu o couro.
Além disso, o Congresso não é mais apenas uma massa de manobra fisiológica. Há uma nova direita ideológica que não quer apenas a verba para a ponte; ela quer pautas de costumes, liberdade econômica e segurança pública. Lula, com suas ideias que parecem ter sido guardadas em um armário mofado desde a queda do Muro de Berlim, não consegue dialogar com essa nova realidade. Como diz o ditado, ele é um "presidente transplantado" e o corpo político brasileiro está apresentando uma rejeição aguda.
Alcolumbre: Estratégia ou traição?
É aqui que o caldo engrossa. O Metrópoles trouxe uma bomba que, se for verdade, fará a direita limpinha tremer: "Alcolumbre negociou com direita reeleição para comando do Senado". A verdade nua e crua é que políticos como Alcolumbre não agem por amor. Eles agem pelo faro do poder.
Se Alcolumbre está impondo derrotas a Lula e manobrando para reduzir penas de Bolsonaro (como apontou o G1), não é porque ele acordou bolsonarista. É porque ele percebeu que o barco de Lula está fazendo água e o vento de 2026 sopra para a direita. Ele está aplicando a técnica do "servir bem para servir sempre".
Isso dói nos ouvidos de quem acha que política se faz com "fadinhas e purismo". Mas a política real é xadrez, não é damas. É sobre alianças temporárias com quem você não gosta para atingir um objetivo maior. O O Globo e a Folha de S. Paulo já sinalizam que Alcolumbre pode pautar até o impeachment de ministros do STF em troca de apoio para sua reeleição no Senado. Você faria esse acordo? Se a resposta for "não " por uma questão moral, parabéns: você é um ótimo cidadão, mas um péssimo estrategista.
O erro fatal do "deixa sangrar"
Aqui entra o alerta vermelho para a direita. O Flávio Bolsonaro tem se mostrado um articulador astuto, entendendo que para vencer o Sistema, às vezes você precisa usar as ferramentas do Sistema. No entanto, o histórico é um professor severo. A Revista Veja lembrou algo que muitos esqueceram: o PSDB, lá atrás, achou que o Lula tinha acabado após o Mensalão. Resolveram "deixar o Lula sangrar" até 2006 em vez de cortarem a cabeça da hidra com um impeachment. Resultado? Lula se recuperou, ganhou a eleição e ainda elegeu a Dilma depois.
Nunca subestime uma fera ferida que tem currais eleitorais consolidados, especialmente no Nordeste, onde a política de base ainda funciona no estilo antigo. Achar que o jogo está ganho só porque Alcolumbre está sorrindo para a direita é de uma ingenuidade infantil. O sistema é camaleônico. O Correio Braziliense chegou a comparar o momento atual com a crise do florianismo na República da Espada. O isolamento do presidente é real, mas o desfecho depende de quem souber jogar melhor as próximas rodadas.
O desespero identitário e a realidade das ruas
Vendo a base desmoronar, o governo Lula tenta a última cartada: o identitarismo. O Estadão noticiou que Lula pode indicar uma mulher negra para o STF para tentar "lacrar" e chamar quem discordar de racista. Mas o povo já percebeu o truque. Se ele quisesse representatividade, teria feito isso nas indicações anteriores (Zanin e Dino). Agora, é apenas moeda de troca para tentar salvar um governo que a CBN já questiona: "O governo Lula acabou?".
A esquerda, em seu delírio habitual, sugere uma "guinada mais para a esquerda" (conforme Ivan Valente na Folha). Eles acham que ir mais para o extremo vai reconquistar o povo. Mal sabem eles que a "parte sadia do povão" mencionada pela Revista Fórum não quer bagunçar o coreto; quer emprego, segurança e o fim da ideologia de gênero nas escolas.
Conclusão: Acorda, direita!
A direita brasileira precisa amadurecer. Política não é sobre ser o "fiscal de pureza" da internet ou fazer videozinho indignado. É sobre resultados. Se precisamos do "vilão" Alcolumbre para barrar o avanço do autoritarismo e limpar o STF, que assim seja. O próprio povo vota no Centrão, então o Centrão é uma peça que está no tabuleiro e não vai sair tão cedo.
O governo Lula está mofado, sem dinheiro para comprar apoio e sem apoio popular para peitar o Congresso.
Não cometam o erro do PSDB. Não achem que o jogo acabou. O xadrez político é contínuo, e cada peça movida por Alcolumbre ou Flávio Bolsonaro deve ser analisada com a frieza de quem sabe que, em Brasília, o "malvado favorito" de hoje pode ser o carrasco de amanhã. A estratégia vence o barulho. Vamos construir a vitória com a realidade que temos, não com a utopia que sonhamos.
Afinal, na política, o amadorismo é o caminho mais rápido para a derrota eterna. E o Brasil não tem mais tempo para ser governado por quem vive no passado. O futuro exige dentes, estratégia e, acima de tudo, a consciência de que o jogo não está ganho. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 4/5/2026)

