28/08/2025

Operação contra crime organizado atinge Faria Lima e setor de combustíveis

Operação contra crime organizado atinge Faria Lima e setor de combustíveis

Agentes se concentraram desde cedo em São Paulo para darem início a operação Carbono Oculto Foto Divulgação Receita Federal

Por Marcelo Godoy

Agentes da PF, PM, Gaeco e Receitas Federal e Estadual cumprem 200 mandados de busca e apreensão em 10 Estados do País. Reportagem busca contato com investigados.

Operação contra crime organizado atinge Faria Lima e setor de combustíveis

Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do País, amanhece nesta quinta-feira, dia 28, com equipes da Polícia Federal, Polícia Militar, Promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) além de agentes e fiscais das Receitas Estadual e Federal. Trata-se da Operação Carbono Oculto, a maior feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País.

Ao todo 1.400 agentes estão cumprindo 200 mandados de busca e apreensão contra 350 alvos em dez Estados contra envolvidos no domínio de toda a cadeia produtiva da área de combustíveis, parte da qual foi capturada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Só a Faria Lima concentra 42 dos alvos – empresas, corretoras e fundos de investimentos – em cinco endereços, incluíndo alguns edifícios icônicos da região.

A reportagem busca contato com os investigados na operação, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto.

De acordo com as autoridades, a principal instituição de pagamentos investigada, a BK Bank, registrou R$ 17,7 bilhões em movimentações financeiras suspeitas. A Receita Federal estima que o esquema criminoso tenha sonegado R$ 1,4 bilhão em tributos federais. O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (CIRA/SP) pediu à Justiça o bloqueio de bens para recuperar os tributos estaduais sonegados, que somam R$ 7.672.938.883,21.

As investigações apontam para uma dezena de práticas criminosas, desde crimes contra a ordem econômica, passando por adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro — inclusive do tráfico de drogas —, além de fraude fiscal e estelionato.

Os acusados teriam obtido parte do domínio da cadeia produtiva do etanol, da gasolina e do diesel por meio da associação de dois grupos econômicos e por suas ligações e com operadores suspeitos de lavar dinheiro para o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Além da lavagem de dinheiro do PCC, os promotores do Gaeco afirmam que a organização investigada manteria um esquema gigantesco de ocultação de posições societárias, de rendas e de patrimônio.

A Justiça decretou a indisponibilidade de quatro usinas de álcool no Estado, cinco administradoras de fundos de investimentos, cinco redes de postos de gasolina com mais de 300 endereços para venda de combustíveis no País. Ao todo são investigadas 17 distribuidoras de combustível, quatro transportadoras de cargas, dois terminais de portos, duas instituições de pagamentos, seis refinadoras e formuladoras de combustível, além dos bens de 21 pessoas físicas e até uma rede de padarias.

Outro ponto importante da ação do grupo estaria na importação irregular de metanol por meio do Porto de Paranaguá (PR). O produto não seria entregue aos destinatários finais das notas fiscais. Em vez disso, era desviado e transportado clandestinamente por uma frota de caminhões própria da organização a fim de ser entregue em postos e distribuidoras para adulterar a gasolina, gerando “lucros bilionários à organização”.

A Faria Lima e as usinas sucroalcooleiras

Após dominar parte do setor – segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) o setor representa 10% do PIB nacional, gera 1,6 milhão de empregos diretos e indiretos, fatura anualmente R$ 420 bilhões e recolhe cerca de R$ 130 bilhões em impostos – os bandidos procuravam blindar seu patrimônio contra investigações e aumentar seus lucros no mercado financeiro. É aí que a Faria Lima entrou no roteiro da operação.

Só na região da Avenida que corta o coração da região que concentra a nata do mercado financeiro brasileiro, federais, promotores e fiscais estão vasculhando os escritórios onde funcionam 14 fundos imobiliários e 15 fundos de investimentos administrados por cinco empresas. Além dos alvos na avenida, a força-tarefa da operação foi atrás de outros 22 na região. Ao todo, 21 endereços estão sendo varridos na capital, além de 32 em outras 18 cidades do interior.

 

São cinco os núcleos da organização criminosa que estão sendo investigados. O principal é formado pelos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Loco, e Mohamad Hussein Mourad, do antigo grupo Aster/Copape. Eles teriam se associado ao Grupo Refit (ex-Manguinhos), do empresário Ricardo Magro, que foi advogado do ex-deputado federal Eduardo Cunha.

Os acusados, segundo as investigações da PF e o Gaeco, expandiram suas atividades empresariais sobre toda a cadeia de produção e venda de combustíveis do País financiados pelo dinheiro ilícito, que lhes permitiu aumentar de forma exponencial seu poder econômico e político, financiando lobistas poderosos em Brasília. O Estadão não conseguiu ainda contato coma defesa dos investigados.

No papel, Beto Louco e Mourad são donos de poucas empresas. Uma delas é a TTI Bless Trading Comercio de Derivados de Petróleo. Outra é a G8Log Transportes, com sede em Guarulhos, que gerencia uma frota de caminhões registrada em nome de outra empresa que transporta combustível para usinas de álcool do interior. Foi por meio delas que os promotores chegaram, à nova fase do grupo: a compra de usinas sucroalcooleiras no interior de São Paulo.

As ligações com Manguinhos

Depois de serem alvos da Operação Cassiopeia, em 2024, Mourad e Beto Loco teriam se movimentado para blindar o patrimônio bilionário da dupla. Na época, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) cassou as licenças das duas principais empresas do grupo: a distribuidora Aster e a formuladora Copape. Mesmo assim, de acordo com os promotores, os acusados continuaram a atuar em toda cadeia produtiva do setor.

Exemplo disso seria o fato de suas distribuidoras de combustíveis fornecerem óleo para o maquinário agrícola de usinas sucroalcooleiras ao mesmo tempo em que estas distribuem etanol para a rede de postos do grupo, bem como a gasolina produzida por meio das formuladoras de combustível dos acusados, antes ligadas à Copape e atualmente absorvidas pelo Grupo Manguinhos.

Ainda segundo os investigadores, a carioca Rodopetro teria assumido as posições que antes eram ocupadas pela Aster, a distribuidora de Mourad e de Beto Loco, criando “camadas de ocultação” do patrimônio. Essa absorção pelo Grupo Manguinhos teria acontecido no segundo semestre de 2024. De acordo com os investigadores, no mesmo período, Mourad criou a Arka Distribuidora de Combustíveis e a TLOG Terminais Ltda em Duque de Caxias, no Rio, para operar em conjunto com Manguinhos.

Seis outras distribuidoras de combustível seriam usadas para conectar os dois grupos. Elas seriam vinculadas a Mourad indicando, segundo os investigadores, uma atuação concertada de empresas com sedes em Jardinópolis, Iguatemi e Guarulhos, em São Paulo, e em Senador Canedo, em Goiás. Em Jardinópolis, por exemplo, os agentes dizem que Mourad se associou a outro empresário para adquirir a Rede Sol Fuel, cuja sede fica perto da Usina Carolo, em Pontal (SP), assim como das outras usinas da região de Catanduva (SP) compradas pelo grupo.

As instalações da Rede Sol Fuel são compartilhadas, segundo os promotores, com a real substituta da Aster: a Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool. De acordo com os investigadores, a integração da Duvale ao grupo de Mourad revelaria uma relação perigosa. Isso porque a empresa teria emitido procuração para o empresário Daniel Dias Lopes, condenado a 9 anos de prisão por tráfico internacional de drogas. Lopes seria ainda vinculado à distribuidora Arka. Eles ainda manteriam contatos com os grupos Boxter e com acusados investigados durante a Operação Rei do Crime, da PF, sobre a lavagem de dinheiro de Marcola.

Segundo os promotores e os federais, as distribuidoras de combustível ligadas ao grupo de Mourad têm as mesmas características: capital social idêntico e constituído em períodos próximos. A análise financeira e fiscal de seus sócios e diretores mostraria incongruências que seriam aptas a qualifica-las como “interpostas pessoas”, quando não ligadas “ao crime organizado”. Por fim, elas formariam um cartel em razão das relações com as usinas do grupo, tanto no fornecimento de diesel, quanto na distribuição do etanol (Estadão.com, 28/8/25)

 



Álcool tóxico e elo com PCC: como agem quadrilhas que adulteram combustível

Para driblar fiscalização, grupos diversificam estratégias e usam metanol para mudar composição do produto. Megaoperação desta quinta, 28, mira esquema bilionário do crime organizado no setor

Por Ítalo Lo Re

Em um posto de Niterói (RJ), o etanol vendido nas bombas não estava só “batizado”, como composto por 92,1% de metanol, uma substância tóxica – o limite permitido pela lei é de 0,5%. Flagrantes de uso irregular e adulteração com o produto, como esse feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em julho de 2023, ficaram mais comuns no último ano.

“Era tão alta a porcentagem que o metanol era praticamente o combustível vendido”, disse o promotor Pedro Simão, responsável por oferecer a denúncia pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ), em entrevista ao Estadão no ano passado.

Nesta quinta, 28, uma megaoperação, realizada em sete Estados do País, mira esquema bilionário comandado pelo crime organizado no setor de combustíveis e fintechs.

Ao todo 1,4 mil agentes cumprem 200 mandados de busca e apreensão contra 350 alvos em dez Estados. Em alguns casos, há domínio de toda a cadeia produtiva do setor de combustíveis, parte da qual foi capturada pelo PCC. Só a Faria Lima concentra 42 dos alvos – empresas, corretoras e fundos de investimentos – em cinco endereços, incluindo alguns edifícios icônicos da região.

Combustível adulterado

Os autos de infração relacionados a metanol emitidos pela ANP atingiram, em 2023, o recorde desde que começaram a ser contabilizados, em 2017. Foram 187 registros, alta de 73,5% ante os números de um ano antes (108). Quando se compara com períodos anteriores, a diferença é ainda maior. Em 2020, por exemplo, foram somente 37 casos desse tipo contabilizados pela agência.

Para driblar a polícia, quadrilhas diversificam as estratégias pelo País, em esquemas chegam a envolver grandes facções criminosas, como até o Primeiro Comando da Capital (PCC). De um ano para cá, além do Rio, houve operações que miram adulterações em combustíveis em vários Estados, entre eles São Paulo, Bahia, Maranhão e Paraná.

Conforme a ANP, diante da “incidência incomum de contaminação por metanol” entre abril e setembro do ano passado, foram adotadas medidas. A agência, por exemplo, indeferiu 67 pedidos de importação de metanol em 2023, o que evitou a entrada de cerca de 63 mil m³ do produto para possível uso irregular no País — muitas vezes, o esquema só se revela fraudulento na distribuição.

O posto de gasolina citado no começo da reportagem foi um dos três interditados na Operação Fake Fuel, deflagrada em 2023 pelo Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-RJ em parceria com a Polícia Civil e a ANP. As investigações indicam que o grupo vendia combustível adulterado não só em Niterói, como em outros dois postos em São Gonçalo.

À época, cinco suspeitos foram denunciados ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio e tornaram-se réus no fim do ano passado. Entre eles, o empresário Carlos Eduardo Fagundes Cordeiro, de 49 anos, foragido desde então. Segundo a denúncia, a qual o Estadão teve acesso, ele é descrito como “mentor intelectual e responsável por todas as fases da empreitada delituosa”.

Procurada pela reportagem, a defesa de Cordeiro afirmou que o empresário provará inocência ao final do processo. “Ele segue ausente da prisão, mas, desde o primeiro momento, se fez presente por advogado nos autos e terá o seu direito de exercer sua autodefesa”, disse o advogado Jairo Magalhães.

As investigações apontaram que, além do etanol, a gasolina nos postos investigados também tinha indícios de adulteração: amostra coletada no posto de Niterói indicou que a substância vendida por lá continha 66% de etanol anidro, mais do que o dobro do que permite a lei (27%).

Na prática, muitas vezes a adulteração só é percebida quando causa danos reais aos consumidores. O Ministério Público do Paraná, por exemplo, ajuizou no mês passado ação civil pública contra dois postos de combustíveis de Cornélio Procópio, no interior do Estado.

As apurações tiveram início após a 3ª Promotoria de Justiça da cidade receber representação de consumidor que teve problemas mecânicos em sua roçadeira. Após análise técnica, ficou comprovado que a causa das falhas foi a adulteração do combustível usado no equipamento.

Estimativa do Instituto Combustível Legal (ICL) aponta que cerca de R$ 30 bilhões são desviados por ano no setor, sendo metade em sonegação e outra metade em fraudes operacionais, como adulteração de etanol e chips na bomba (usados para ludibriar o cliente quanto ao valor a ser pago). Alguns dos prejuízos a consumidores, porém, são difíceis de mensurar, uma vez que muitos sequer associam problemas no carro ao abastecimento do tanque.

Deflagrada em fevereiro de 2024 pelo Gaeco do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) em parceria com outros órgãos, uma investigação identificou um possível elo de um esquema de adulteração de combustíveis com bandidos ligados ao PCC, maior facção criminosa do país.

As investigações da Operação Boyle tiveram início depois que, em maio de 2023, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu um caminhão-tanque com 30 mil litros de metanol durante patrulhamento em uma rodovia em São Paulo. O motorista não tinha nenhuma documentação para transportar o produto.

Com isso, a Delegacia de Repressão a Crimes Ambientais da Superintendência de PF de São Paulo instaurou procedimento para investigar o caso e, com ajuda da Receita Federal, descobriu um esquema muito maior, com possível envolvimento de ao menos 16 suspeitos de integrar o esquema, e 16 empresas, como postos de combustíveis e transportadoras.

“Entre maio, junho e julho de 2023, identificamos que as empresas envolvidas na fraude movimentaram aproximadamente R$ 31 milhões, ou cerca de 10 toneladas de metanol”, diz o auditor fiscal Rodrigo Poli, chefe do Escritório de Pesquisa e Investigação (Espei) da Receita. A principal hipótese é de que a substância seria usada para adulterar combustíveis em postos espalhados pelo Estado.

  • Em geral, especialistas dizem que o metanol, embora também seja produzido por aqui, é importado de países como Chile e Venezuela por empresas autorizadas a realizar esse procedimento e chega ao Brasil por vias marítimas.
  • Depois, é distribuído de forma irregular aos posto. “Em 2023, tivemos muita importação de metanol com suspeita de irregularidade”, afirma Poli.

As investigações, ainda em curso, mapearam que alguns dos donos das empresas investigadas têm vínculo com o PCC. Para esconder esses elos, o esquema teria usado “laranjas” (pessoas sem histórico no crime) para tentar manter distância das investigações.

Na deflagração da operação, em fevereiro, foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Santo André, Poá, Arujá e Bertioga.

Dados do Procon-SP indicam que, somente no primeiro semestre deste ano, o Estado já teve mais autuações de postos relacionadas à qualidade dos combustíveis do que em todo o ano passado. Foram 13 autuações deste tipo realizadas pelo órgão de fiscalização em 2024 (em um universo de 98 fiscalizações), ante 8 no ano passado (em meio a 394 ações).

São Paulo está na mira dos criminosos

São Paulo é considerado o principal epicentro da adulteração de combustíveis no País, segundo autoridades ouvidas pela reportagem. Não à toa, é o Estado que costuma receber o maior número de fiscalizações pela ANP, mas investigadores relatam que os esquemas têm avançado por outras regiões.

“Temos ficado muito preocupados com isso. Infelizmente, o crime organizado vem crescendo a atuação dentro do setor”, diz Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL). “Eles saíram mais da Região Sudeste e também começaram a atacar fortemente o Nordeste, por exemplo.”

  • São cerca de 43 mil postos de gasolina no País, segundo levantamento do setor.
  • O ICL estima que há indícios de atuação do PCC junto a mais de 900 postos de combustíveis, por vezes usados pela facção também para lavar dinheiro obtido com o tráfico de drogas.

Eles saíram mais da Região Sudeste e também começaram a atacar fortemente o Nordeste, por exemplo

Na Bahia, policiais do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco) localizaram no começo deste ano um depósito suspeito de ser usado para adulteração de combustível em Feira de Santana. Foram apreendidos por lá 27,3 mil litros de etanol, 231,8 mil de nafta e 228,01 mil de óleo diesel. Uma empresa foi autuada.

A Operação Carbono, que contou com a participação da Secretaria da Fazenda do Estado e da ANP, resultou na desativação de um laboratório focado na adulteração de combustíveis. O espaço seria usado para a fabricar combustível adulterado para abastecer não só postos da Bahia, mas de Estados vizinhos, como Piauí e Pernambuco.

O governo baiano apontou ainda que, embora inscrita no Simples Nacional, a instituição movimentou valores acima do limite estabelecido para este segmento de contribuintes, já que só a carga encontrada no depósito somava quase R$ 2 milhões. As investigações da Operação Carbono prosseguem para identificar mais envolvidos na cadeia.

Já o Ministério Público do Maranhão deflagrou em agosto do ano passado a Operação Hades, em que um grupo é investigado por suspeita de crimes de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Foram apreendidos 11 veículos, R$ 418,2 mil em espécie, R$ 195,4 mil em cheques e 12 aparelhos celulares. A operação foi em parceria com a Secretaria Estadual da Fazenda e a ANP.

Na prática, segundo autoridades envolvidas na investigação, o esquema teria sido formado porque o álcool etílico hidratado, conhecido como carburante (usados nos veículos), é basicamente o mesmo álcool para fins de indústria, só que com alíquota maior de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).

Diante disso, quadrilhas criaram empresas fantasmas para importar esse segundo tipo de álcool, supostamente para usar na indústria. Quando as cargas chegavam, porém, usavam para abastecer uma rede de ao menos cinco postos.

As investigações do Gaeco apontam que, de janeiro de 2015 a outubro de 2020, a fraude representou prejuízo de R$ 68,8 milhões ao Estado do Maranhão. Isso sem considerar possíveis multas e juros. Mais de 109 milhões de litros de etanol foram movimentados no período.

Conforme autoridades, fraudes desse tipo ganharam força há cerca de duas décadas em Minas Gerais. Com a intensificação de fiscalizações pela Receita por lá, o crime migrou para Goiás e, mais recentemente, para Estados do Nordeste, como o Maranhão.

Agora, a operação ainda deve se desdobrar em outra fase. O objetivo, de acordo com autoridades ouvidas pela reportagem, é aprofundar se há mistura com outros compostos e envolvimento de organizações criminosas no esquema, como o PCC.

ANP intensifica fiscalizações para combater irregularidades

Entre janeiro e fevereiro deste ano, a ANP já realizou 3,7 mil ações de fiscalização (parte delas em parceria com os Estados), alta de 47% ante o mesmo período do ano passado (2,5 mil).

Quando se leva em conta todo o ano de 2023, já havia subido o número averiguações, com 21,3 mil ações no ano passado, ante 19,1 mil em 2022.

Em 2023, o índice médio de conformidade dos combustíveis no País foi de 97,4%, conforme dados do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC) da ANP. O número ficou próximo ao indicador de 2022, de 97,5%, o que coloca a qualidade dos combustíveis no Brasil em patamares internacionais de qualidade, segundo a agência.

Mas nem sempre foi assim, o que resultou em medidas adotadas pelos próprios Estados. No Rio Grande do Sul, o Ministério Público mantém, há cerca de 20 anos, um engenheiro químico dentro da promotoria do consumidor para facilitar as fiscalizações.

“Na época, tínhamos 27,5% no Rio Grande do Sul de inconformidades, englobando a adulterações e erros operacionais”, diz o promotor de Justiça Alcindo Bastos, da Promotoria de Defesa do Consumidor de Porto Alegre.

Diante disso, a promotoria passou a contar com um engenheiro químico para auxiliar as fiscalizações, medida considerada pioneira. O profissional passou a atuar em ações em diferentes regiões do Estado para avaliar os combustíveis vendidos nos postos. “Em questão de seis a sete meses, reduzimos as inconformidades para 0,6%, 0,8%”, afirma Bastos.

Os estabelecimentos autuados pela ANP estão sujeitos a multas, que podem variar de R$ 5 mil a R$ 5 milhões, bem como outras penalidades previstas em lei. A agência afirma que as sanções são aplicadas somente após processo administrativo, durante o qual “o agente econômico tem direito à ampla defesa e ao contraditório, conforme definido em lei” (Estadão.com, 28/8/25)

 



Operação contra crime organizado aponta elo de núcleos com o PCC e o tráfico de drogas

Investigações indicam que integrantes de um dos grupos manteriam transações imobiliárias com pessoas que lavavam dinheiro para alguns nomes do Primeiro Comando da Capital; Reportagem busca contato com os investigados

Dois dos núcleos investigados na Operação Carbono Oculto pelo Ministério Público, Policia Federal e Receitas Estadual e Federal têm como líderes os integrantes das famílias Cepeda e Gonçalves. É principalmente em razão deles que os promotores do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) acusam a organização investigada nesta quinta-feira, dia 28, de manter ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e com o tráfico internacional de drogas.

A reportagem busca contato com os investigados na operação, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto.

Outro nome que os investigadores identificaram no emaranhado de relações econômicas entre os acusados foi o empresário Daniel Lopes, condenado a 9 anos de prisão por tráfico internacional de drogas pela 14.ª Vara Criminal de Curitiba. Lopes também foi condenado pela Justiça estadual de São Paulo em razão de fraudes praticadas à frente de posto de combustível em Hortolândia (SP).

Ele também seria vinculado, segundo os promotores, a empresas química envolvidas em investigações sobre refino de drogas. Daniel Lopes manteria ainda relações com duas empresas do grupo do empresário Mohamad Hussein Mourad, do grupo Aster/Copape. Lopes, afirmam os promotores, não seria o único acusado por tráfico ligado ao grupo.

De acordo com os investigadores, esse também seria o caso de Renato Martins Vieira, da VMR Distribuidora de Combustíveis e Lubrificantes, cujo tio Antônio Carlos Martins Vieira, o Tonhão Forte, e o sobrinho Gustavo Martins Vieira seriam ligados ao PCC. Tonhão Forte é ainda acusado de roubo de cargas em Alagoas e foi alvo da Polícia Federal.

Os dois manteriam, de acordo com os promotores, relações com os núcleos da família Cepeda Gonçalves e de José Carlos Gonçalves, o Alemão, que foram investigados pela Polícia Federal durante a Operação Rei do Crime, sob a suspeita de lavar dinheiro do líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.

Segundo os investigadores, esses dois núcleos teriam relações com os irmãos Salomão, que foram sócios do empresário Antônio Vinícius Gritzbach. Delator do PCC, Gritzbach foi assassinado no dia 8 de novembro de 2024 no aeroporto de Guarulhos, a mando de criminosos da facção. Um dos investigados no caso dos combustíveis também teria ameaçado Gritzbach em razão dos negócios com postos de combustíveis na zona leste de São Paulo.

De acordo com as investigações, o núcleo Cepeda seria controlado por Natalício Pereira Gonçalves Filho e por seus filhos Renan Cepeda Gonçalves e Natália Cepeda Gonçalves. Eles estariam ligados a 73 postos de combustível. “Identificou-se conexões diretas com o grupo Mourad” por meio da RCG Investimentos e Participações, destacam os investigadores.

A família Cepeda Gonçalves seria sócia da Stock Distribuidora de Petróleo, que seria conectada à RCG. Eles seriam ainda ligados à família Salomão. Dizem os promotores: “A família Luiz Salomão possui notórias conexões com Antonio Vinicius Lopes Gritzbach e José Carlos Gonçalves, o Alemão, ambos com mídias negativas com apontamentos de envolvimento com a lavagem de capitais do PCC.”

De acordo com os investigadores, os dois núcleos operavam de modo semelhante por meio das substituições de quadros societários e empresas conectadas entre si. Os promotores suspeitam que a dinâmica seja uma forma fraudulenta para acobertar os beneficiários finais. Tudo isso feito por meio de laranjas ou com o registro de empresas em nome de parentes.

Manguinhos e PCC

Foi assim, por meio de um parente de Mourad, que a investigação encontrou as provas de vinculação do grupo Aster/Copape com o Grupo Manguinhos. Trata-se de Himad Abdallah Mourad, primo de Mourad. Himad aparece como diretor da GGX, que domina 103 postos de combustíveis, além da GT formuladora, da distribuidora Arka e dos terminais portuários TLOG Terminais e Riolog Terminais.

Foi ainda por meio de Himad que os promotores chegaram às primeiras relações dos acusados com o PCC. Ela ocorreria por meio da família que manteria transações imobiliárias com pessoas que lavavam dinheiro para integrantes da facção criminosa.

Outro parente de Mourad, Tharek Majide Bannout, teria uma rede de padarias e atuaria no ramo dos postos de combustíveis da RCG Investimentos e Participações, empresa que pertencia a Renan Cepeda, investigado na Operação Rei do Crime, em 2020, por supostas ligações com operadores de Marcola. Renan é sócio de Natalício Pereira Gonçalves Filho na Rede Boxter de Combustíveis, apontada pelos investigadores como a rede de postos de gasolina do PCC.

Ele chegou a ser preso na operação Rei do Crime, que nasceu da delação premiada do piloto de helicóptero Felipe Ramos de Morais. O piloto acabaria morto em 2022 por policiais militares de Goiás, o que levou a Justiça Federal a cancelar a operação e a liberar bens dos acusados ligados a Marcola, avaliados em R$ 800 milhões, que haviam sido sequestrados a pedido da Polícia Federal (Estadão.com, 28/8/25)