28/09/2026

Parte de empresários se frustra com encontro de Lula

Parte de empresários se frustra com encontro de Lula

Encontro sem anúncio concreto nem firmeza com fiscal. Lula, entre Miriam Belchior e Alckmin, em jantar com empresários: discurso abordou diferentes aspectos econômicos. Foto Reprodução Youtube

 

Bastidores: Disputado e com mais de 700 pessoas presentes, encontro teve grandes nomes do PIB, mas alguns, como Milton Maluhy, do Itaú, saíram antes de o presidente discursar.

 

O presidente Lula brincou com empresários e banqueiros, passeou pelo carrossel de problemas econômicos e chamou toda sua equipe para discursar no jantar que aconteceu na sexta-feira, 25, em São Paulo. Porém, parte da plateia saiu frustrada do encontro, ao qual estiveram presentes mais de 700 pessoas, entre empresários, banqueiros, comandantes de corporações, executivos, advogados e assessores variados.

 

O Estadão conversou com oito pessoas que estavam presentes, que atuam nos setores financeiro, industrial e imobiliário, na condição de anonimato. Programado para ter início às 19h, o evento só começou efetivamente às 20h40. Houve 1h40 de discursos dos organizadores Esfera Brasil, Prerrogativas e Parlatório, bem como de empresários, ministros e presidentes de instituições públicas, antes de Lula tomar a palavra. Empresários de peso que haviam registrado presença, como Milton Maluhy (Itaú), saíram antes de Lula falar.

 

Alguns convidados tinham expectativas de anúncios concretos por parte de Lula em relação ao tema, que não ocorreram. Havia quem esperasse medidas efetivas de cortes de despesas do governo ou, até mesmo, que o vice-presidente Geraldo Alckmin ou algum nome com maior credibilidade com o mercado fosse anunciado como ministro da Fazenda. Nada nessa linha aconteceu e, como outros tantos esperavam, prevaleceu o tom de campanha eleitoral.

 

Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, disse, porém, ter visto um esforços da equipe de Lula para tentar fazer acenos do lado fiscal. Por força do cargo, Garman, que trabalha em uma das maiores consultorias de risco político e geopolítico do mundo, acompanha todas as falas do governo de perto.

 

“Os discursos foram mais construtivos do que o presidente tem dito anteriormente”, afirmou Garman. “Principalmente se for somado ao que os ministros disseram no evento: Aloísio (Mercadante, do BNDES) chamou a atenção à necessidade de fazer controle de gastos, (o vice-presidente Geraldo) Alckmin afirmou que não se pode subir os gastos além do PIB, Dario (Durigan, da Fazenda) também repetiu o que já vem dizendo nesse sentido e o Lula falou o mesmo, daquele jeito dele, de que a mãe, dona Lindu, o ensinou que não se pode gastar mais do que ganha”, acrescentou.

 

Ninguém, no entanto, saiu do jantar esperando uma profunda reforma fiscal, caso Lula ganhe novamente, disse Garman. “O problema é que há uma falta de credibilidade grande nesse aspecto”, afirmou.

 

Dois dos presentes, ouvidos na condição de anonimato chegaram, inclusive, a classificar o encontro como quase desrespeitoso. Isso porque parte da plateia leu os discursos como autocentrados e com foco nas realizações do governo, sem qualquer crítica à política pública de gastos, que impede a queda maior dos juros e leva ao endividamento de empresas e famílias.

 

Segundo um deles, a expectativa era de que Lula estivesse mais assustado com a hipótese de perder as eleições e fizesse um gesto mais amigável à plateia, que foi mais tributada nesta gestão. Em busca de maior arrecadação, o governo passou a taxar a distribuição de lucros e dividendos, fundos exclusivos e offshores e aumentou a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) sobre instituições financeiras.

 

“O jantar foi nitidamente de prestação de contas ao empresariado, já que o governo, no decorrer da gestão, tomou medidas que aumentaram seu imposto e tentou outras mais que, de maneira geral, não foram bem recebidas”, afirmou Basilio Jafet, vice-presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), que representa 93 mil empresas como incorporadoras, construtoras, administradoras de condomínios, loteadoras e imobiliárias. “O evento foi bom, no sentido de entender o que o governo está pensando, mas sentimos que o tema do ajuste fiscal não tenha sido levado com a profundidade que merece.”

 

O discurso de Mercadante foi mencionado por participantes como o mais pertinente em relação ao tema. Ao contrário dos demais membros da mesa, ele inverteu o cerimonial e cumprimentou, em vez de autoridades, representantes do público presente. Saudou, entre outros, o cientista político Eduardo Gianetti, a economista Claudia Costin, o empresário Emerson Kapaz, Joaquim Levy (ex-ministro da Fazenda e atualmente no Banco Safra), o empresário Carlos Sanchez, da EMS, o investidor Lírio Parisotto, o presidente da Febraban, Isaac Sidney, e Maluhy, do Itaú.

 

Também falou com um pouco mais de profundidade sobre o ajuste fiscal. Lembrou de momentos em que as gestões Lula caminharam nesse sentido, com o fim da crise da dívida externa, os anos de superávits primários e conquista de grau de investimento. Pediu discussões profundas sobre a responsabilização de todos os entes públicos. “Todos querem se desendividar e o presidente, mais do que ninguém, também quer”, disse Mercadante.

 

O advogado Ernesto Tzirulnik, presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Seguro, foi um dos que elogiou o discurso de Mercadante. Membro do coletivo Prerrogativas, organizador do evento e apoiador do presidente Lula, ele esteve no encontro com 20 presidentes de seguradoras e resseguradoras.

 

Segundo Tzirulnik, o setor aprendeu a respeitar o governo a duras penas, após conseguir marcos regulatórios que tramitavam há anos sem serem efetivados.

 

O tema fiscal também não foi discutido com maior profundidade por Lula nem na sala de segurança, onde ele recebeu alguns empresários de maior porte antes do evento. Segundo fontes, a passagem foi rápida, apenas para cumprimentar alguns empresários de quem ele foi ou é mais próximo.

 

Outro comentário de diferentes convidados é que faltaram nos discursos propostas de futuro. As declarações se concentraram sobre realizações passadas e ficaram de fora iniciativas inovadoras e um olhar para a frente, de acordo com mais de uma fonte (Estadão, 27/9/26)