Por que nós toleramos tanto, há tanto tempo, com tamanha naturalidade?
Marcello Brito. Foto Silvia Costanti/Valor
Por Marcello Brito
A anestesia brasileira não é defeito de caráter; é resposta racional a um sistema que premia a transgressão e nada cobra de quem com ela convive
Peço aos meus leitores um pouco de paciência neste mês. Ao contrário dos temas que habitualmente ocupam este espaço, não posso ignorar que, em pouco mais de 20 dias, o País estará diante de uma eleição decisiva.
Permiti-me, portanto, investigar um tema que atravessa nosso dia a dia com tamanha naturalidade que quase não o percebemos, e que certamente não se encerra num único artigo: a anestesia com que os brasileiros convivem com o ilegal, o malfeito e o prometido jamais cumprido.
Começo por uma cena banal e, por isso mesmo, reveladora. O cidadão paga seus impostos, sai de casa para um show, estaciona o carro em via pública e é abordado pelo flanelinha. Todos conhecem o contrato implícito: paga-se pela “proteção” do veículo contra o próprio cobrador. Recusar é arriscar a lataria, às vezes a integridade física.
A transação ocorre com frequência diante de policiais que assistem, lenientes, à privatização informal do espaço público. Não se trata de crônica de costumes. Trata-se de um mercado de extorsão operando a céu aberto, com o Estado simultaneamente presente e ausente, e com milhares de vítimas que pagam, dão de ombros e seguem para o estádio.
Esse dar de ombros é o tema desta coluna. Não perguntarei o que os candidatos prometem. Perguntarei por que nós, eleitores, toleramos tanto, há tanto tempo, com tamanha naturalidade.
A lista da nossa leniência é longa e transversal. Bicheiros, grileiros de terra, desmatadores e garimpeiros ilegais, grandes sonegadores e políticos sabidamente corruptos não vivem à margem da sociedade. Circulam na elite dela. Frequentam os mesmos restaurantes, salões e conselhos que suas vítimas difusas, sem qualquer constrangimento, nem da parte deles, nem da parte de quem com eles convive.
Prefeitos e governadores entregam obras de papel que não atravessam um verão, descumprem promessas em série e são reeleitos com folga. O contribuinte que financia tudo isso é achacado na saída de casa.
Falo de dentro. Fui presidente de duas associações setoriais de âmbito nacional, uma internacional, co-facilitador de uma grande iniciativa multisetorial e secretário executivo do Consórcio dos Estados da Amazônia Legal, e convivi de perto com diversos níveis da política estadual e nacional. Saí frustrado, como sabe quem me conhece. Vi compromissos sérios e muita gente compromissada, mas também vi muito descaso, promessas feitas para não serem cumpridas e coisas piores.
Vi muito e pude pouco. Também eu, com cargo e convicção, provei da impotência que anestesia.
A tentação é explicar o fenômeno por um defeito moral do brasileiro, uma espécie de vício de caráter nacional. Décadas de ensaio e de pesquisa sobre o tema sugerem algo mais incômodo e mais útil: não somos piores do que ninguém, apenas respondemos racionalmente a um sistema de incentivos que premia a transgressão e não cobra nada pela conivência.
Nossos grandes intérpretes mapearam a genealogia. Um deles descreveu o homem cordial, que não é o homem gentil, mas aquele que dissolve a norma impessoal na relação pessoal, para quem a lei vale conforme o vínculo. Outro mostrou o Estado patrimonial capturado como espólio por uma casta que nunca precisou distinguir o público do privado.
Coube a Roberto DaMatta dar ao mecanismo sua formulação mais precisa: entre a casa e a rua, entre o indivíduo anônimo submetido à lei e a pessoa protegida por relações, o Brasil criou uma zona cinzenta em que as regras valem ou não dependendo de quem está envolvido. O “sabe com quem está falando?” é a senha de acesso a essa zona.
Os dados contemporâneos confirmam os ensaístas e acrescentam um detalhe devastador. Pesquisa de uma das principais escolas de direito do país, que mede periodicamente a percepção do cumprimento da lei, apurou que 82% dos brasileiros consideram fácil desobedecer às leis. Mais revelador: quanto maiores a renda e a escolaridade do entrevistado, pior a percepção sobre o cumprimento da lei e pior o próprio comportamento declarado.
O topo da pirâmide transgride mais, não menos. A tese confortável de que a ilegalidade é problema de gente sem instrução não sobrevive ao contato com a evidência. O grileiro e o sonegador de grande porte não são acidentes do sistema. São seus usuários premium.
A ciência política brasileira deu nome técnico à nossa anestesia: uma dissonância entre normas morais e prática social. Em abstrato, o brasileiro condena a corrupção com veemência. No cotidiano, convive com ela, negocia com ela e, quando conveniente, pratica suas versões miúdas. Reprovamos no discurso o que absorvemos no convívio. Por isso o corrupto notório não sofre sanção social nenhuma: a condenação moral existe, mas mora em outro andar, que não se comunica com o andar dos jantares e das sociedades.
Os estudos e pesquisas que investigaram a cabeça do brasileiro encontraram a raiz dessa duplicidade: quanto mais hierárquica a visão de mundo do entrevistado, maior a adesão ao jeitinho e maior a tolerância com a quebra da regra em benefício próprio ou de conhecidos. A hierarquia funciona como licença moral: se as pessoas não são iguais perante a vida, por que seriam iguais perante a lei?
O flanelinha, o policial que finge não ver, o motorista que paga e o desembargador que fura a fila do aeroporto compartilham, sem saber, a mesma premissa.
Falta um elo para completar o circuito: por que a urna não corrige nada disso? Duas evidências ajudam. A primeira vem dos levantamentos continentais de opinião pública: o Brasil tem a mais baixa confiança interpessoal da América Latina, na casa de 5%, contra 21% do vizinho Uruguai, enquanto a confiança nas instituições patina abaixo dos 50% da escala há quase duas décadas e atingiu em 2024 seu pior nível em muitos anos, imagina agora.
Uma sociedade em que ninguém confia em ninguém não produz indignação coletiva, produz resignações individuais.
Cada um administra privadamente sua cota de achaque, como quem paga o flanelinha. A segunda evidência é a desconexão que os pesquisadores da opinião pública identificam há anos: o eleitor não liga o buraco da rua ao voto que deu, não conecta a decisão do governo de seu estado, ou de Brasília, ao cotidiano. Pune o prefeito, o governador reclamando na fila do pão, e o reelege em outubro.
O resultado é um equilíbrio, no sentido que os economistas dão à palavra: uma situação em que nenhum participante tem incentivo individual para mudar de conduta. O transgressor não muda porque a probabilidade de sanção legal é baixa e a sanção social é nula. O conivente não muda porque indignar-se sozinho custa caro e não rende nada.
O político não muda porque a obra de papel elege tanto quanto a obra de verdade, com a vantagem de custar menos e sobrar mais. E o policial que assiste ao achaque não muda porque intervir é comprar um problema cuja solução ninguém lhe cobra. Todos se comportam racionalmente. O conjunto é irracional.
Equilíbrios desse tipo têm uma propriedade conhecida: são estáveis até deixarem de ser. Não se desfazem por pregação moral, campanhas de conscientização ou surtos periódicos de indignação nas redes, que funcionam como analgésico adicional, não como tratamento. Desfazem-se quando o custo de os sustentar se torna visível e é atribuído a alguém.
Foi assim com a inflação crônica, que parecia parte da paisagem até que uma geração de formuladores a tornou politicamente insustentável.
Foi assim com o cinto de segurança, com a proibição de fumar em ambientes fechados e com a Lei Seca ao volante, três normas que “não pegariam”, segundo o consenso da época, e que pegaram quando a fiscalização ficou crível e a reprovação social deixou de ser opcional. O brasileiro que hoje afivela o cinto sem pensar é a prova viva de que a anestesia não é traço de caráter. É resposta a incentivos, e incentivos mudam.
O agro, de onde escrevo mensalmente, conhece bem essa mecânica. Passou décadas convivendo com a tolerância ao desmatamento ilegal e ao grileiro como se fossem externalidades folclóricas, até descobrir que o mundo precifica a conivência: mercados fecham, crédito encarece, cláusulas ambientais aparecem em contratos que antes só falavam de preço e prazo.
A sanção que a sociedade brasileira não aplicou internamente veio de fora, na forma de barreira comercial e desconto de reputação. É uma lição que vale para o país inteiro: quando um povo se anestesia, alguém acaba cobrando pela cirurgia, e o preço é sempre maior.
Há uma segunda anestesia, menos visível e mais cara. Enquanto discutimos o de sempre, o mundo está sendo reorganizado por três transformações simultâneas: a transição climática e ecológica, que redesenha cadeias produtivas inteiras e já chega ao Brasil em forma de exigência contratual; a fragmentação da ordem política internacional, que substitui regras multilaterais por blocos, barganhas e coerção econômica; e a mudança tecnológica, que altera o que é produzir, o que é trabalhar e onde fica o valor.
Procure essas três nos programas dos candidatos, nos debates, no noticiário eleitoral. Elas quase não estão lá. Um país que decide seus próximos anos sem falar do que decidirá seus próximos anos não está distraído. Está anestesiado.
A terceira dessas transformações é a que mais nos cobra e a que menos discutimos. A inteligência artificial não é gadget nem ameaça abstrata de ficção: é a chance concreta de resolver o problema que nos persegue há quatro décadas, o de crescer sem ganhar produtividade. Crescemos, quando crescemos, empurrados por preço de commodity e por ciclo de crédito, não por eficiência.
Nenhum país sustentou prosperidade dessa forma. Compor crescimento com investimento em inovação, em capital humano, em pesquisa aplicada e em difusão tecnológica para o tecido produtivo que não é de ponta deixou de ser agenda de seminário e virou condição de sobrevivência econômica.
O agro brasileiro, aliás, é a prova doméstica de que funciona: virou potência porque décadas atrás alguém decidiu investir em ciência tropical quando ninguém acreditava. Fizemos uma vez. Não há razão para não fazer de novo, exceto a de que ninguém está cobrando isso na urna.
A eleição que se aproxima não resolverá nada disso, e não é essa a expectativa razoável. Mas ela é o único momento institucional em que a sociedade precifica, ainda que mal, a tolerância que pratica. O voto é a rara ocasião em que a conivência tem custo zero de rompimento: não exige coragem física, não expõe ninguém ao flanelinha, não cobra o constrangimento de recusar um aperto de mão no jantar.
Basta lembrar, diante da urna, do recapeamento que durou três meses, da obra que não aguentou um ano, da promessa que ninguém pretendia cumprir.
Sérgio Buarque de Holanda encerrou Raízes do Brasil com uma aposta: a de que a cordialidade, com tudo o que ela carrega, não seria eterna, e que alguma forma mais impessoal e mais pública de convivência acabaria por se impor. Quase noventa anos depois, seguimos devendo a ele essa demonstração.
A anestesia não é destino, é escolha reiterada. Este artigo, como avisei, não encerra o tema: fica devendo a pergunta mais difícil, a de como enfrentar a degradação moral da política profissional brasileira e, pior, por que permitimos trocar a democracia pela oligarquia dos três poderes: legislativo, judiciário e executivo?
Por ora, o que temos é a urna. Daqui a 25 dias, ela oferece a cada um de nós a rara chance de começar a despertar (Estadão, 12/9/26)
‘Se não nós, então quem? Se não agora, então, quando?’, diz Barbosa, sobre investigações do Master

Fabio Barbosa Foto Felipe Rau Estadão
Um dos mais respeitados executivos brasileiros diz que o País carece de liderança inspiradora nos Três Poderes, mas que primeiros passos estão sendo dados e sociedade saberá reagir na hora certa
Entrevista com Fábio Barbosa
Um dos executivos mais respeitados do País, Fábio Barbosa diz ter ficado contente, apesar da gravidade dos fatos, com a retirada formal do sigilo das investigações sobre o Banco Master, em atendimento à determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin. “Não dá mais para esconder embaixo do tapete”, diz ele.
“Fico satisfeito em ver uma sociedade indignada e revoltada, não apática, mas um pouco perdida, que saberá como se expressar na hora certa, seja no voto ou seja nas ruas.”
Esse movimento da sociedade civil, diz ele, vai depender de como as lideranças do País comandarão a investigação das denúncias que envolvem os ministros da Corte. “Nos Três Poderes, a gente carece do que é o objetivo de uma liderança: que ela seja inspiradora, uma referência de ética, de transparência, para que a população como todo também entre nesse jogo”, diz ele. “O exemplo vem de cima e a gente está carecendo dele.”
Barbosa entende do tema. Deixou sua marca em cada uma das empresas que comandou. No Real ABN Amro, foi pioneiro em colocar a sustentabilidade no mundo das finanças, ainda na década de 90. No Santander, persistiu em carregar esse selo para uma instituição maior. Na Natura, voltou ao básico, quando a empresa precisava simplificar e cortar dívidas.
“Fui gestor de empresas com dezenas de milhares de funcionários e, em sua grande maioria, a sociedade brasileira busca fazer as coisas corretamente”, diz ele, que hoje faz parte do conselho de administração de três companhias com faturamentos bilionários. “Agora, precisa ter um líder inspirador que leve a isso.”
Com o Estadão, Barbosa fez a curadoria da série de debates “Brasil Adiante”, nos quais foram discutidos em profundidade temas que já têm diagnóstico e cujas ações serão levadas ao vencedor das eleições. Com os escândalos mais recentes, assinou o manifesto “Pela lei e pelo Brasil”, que pede a apuração das denúncias e pode ser assinado aqui. “Se não nós, então quem? Se não agora, então quando?”, pergunta ele. Leia a entrevista, a seguir:
O que os mais recentes acontecimentos revelam sobre a situação do País?
Revelam que as denúncias muito sérias que têm vindo a público precisam ser apuradas. Temos feito uma mobilização grande para que o Supremo Tribunal Federal e o Congresso trabalhem com mais transparência, investiguem o que tem de ser investigado e deixem de lado aquilo que não tem fundamento nem base. Há muito tempo a gente vem se mobilizando por mais transparência.
Em dezembro, fizemos uma mobilização pelo Código de Conduta. Com o desenrolar dos fatos, sempre aparece essa possibilidade de que denúncias muito sérias não sejam apuradas. Essa avaliação tem de ser feita por juristas e não por nós. Mas, nós, como sociedade, queremos transparência. O que vi, nos últimos dias, foram alguns avanços. A ideia era respaldar o presidente do STF, que é quem convoca, julga e coloca em votação no plenário, assuntos que não vinham sendo colocados.
Por isso, acredito que evoluiu positivamente: agora, estamos falando de temas que devem ser levados ao plenário na terça-feira, 15, e que a gente gostaria que fosse, obviamente, aberto ser acompanhado. Vamos ver qual vai ser a decisão do presidente. Não dá mais para jogar debaixo do tapete. O volume de informação a ser esclarecida é tão grande que fica difícil dizer: ‘Não aconteceu nada, vamos engavetar tudo’. A gente está avançando no sentido de fazer julgamentos e avaliações que antes não estavam sendo colocados na mesa.
É comum relatos de empresários sobre a demanda da contratação de escritórios que tenham parentes de ministros do Supremo em seus quadros, quando há uma causa importante em jogo. O sr. chegou a perceber essa situação em sua atividade empresarial?
Categoricamente, não. Já ouvi falar, mas nunca vi isso acontecer. Também sei que essas coisas acontecem com quem está, digamos assim, mais vulnerável e aberto a esse tipo de situação. Trabalho em conselhos de empresas extremamente grandes, bem estruturadas em termos de compliance (regras de comportamento) e nunca vi isso.
Pregamos exatamente esse tipo de transparência para todos: que o Judiciário, a PGR (Procuradoria Geral da República), o Congresso e quem quer que seja trabalhe com transparência. O que é democracia? Democracia no fundo é isso: ninguém acima da lei. Todo mundo tem de estar submetido à lei, sem privilégios. Todo mundo tem de ser julgado dentro das provas que existem. Ninguém está pré-julgando, mas as denúncias precisam ser levadas a fato, a uma análise a fundo e não serem escondidas.
Esse é o primeiro passo que a gente gostaria: uma limpeza naquilo que precisa ser limpo. O segundo ponto são as autoridades, no Poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, sejam exemplo de boa conduta. Isso está faltando. A gente não tem, nos Três Poderes, exemplos de condutas dos quais se fale: ‘Poxa, que admiração pela conduta de tais e tais pessoas’.
Nos Três Poderes, a gente carece daquilo que é o objetivo de uma liderança: que ela seja inspiradora, uma referência de ética, de transparência, para que a população como todo também entre nesse jogo. O exemplo vem de cima e a gente está carecendo dele.
Sei de casos de menores, pessoas físicas e coisas do gênero, que têm direito e razão e acabam perdendo causas, lamentavelmente, porque houve alguma distorção no processo. Isso não é exclusividade do Brasil e a mudança na aposentadoria compulsória dos juízes já melhorou muito a situação. A ideia é sempre acender a luz e ver o que está acontecendo. A gente deixou passar no Brasil, durante algum tempo, muitos fatos que deveriam ter sido analisados, deveriam ter sido identificados dentro da lei. Isso leva à ideia de impunidade.
Desvios acontecem em todos os países. O que é feito para mitigar esses problemas e punir os casos indicados é o que importa. O Brasil precisa caminhar para isso. Costumo dizer que o País precisa de várias reformas. Precisa da reforma tributária (que está acontecendo), da reforma previdenciária, da reforma trabalhista. Mas ele precisa, sobretudo, de uma reforma de valores. Esse é o problema principal. A questão é que somos uma sociedade que comete e tolera pequenos delitos.
A gente precisa ver uma inspiração de cima, precisa trabalhar com educação, precisa ter a punição também para desvios, para que valores que são importantes – a melhor forma de controlar uma sociedade – sejam os corretos. Acabei de voltar do Japão. Lá, a sociedade não transige, enquanto no Brasil, na América Latina e até aqui nos Estados Unidos, onde estou (no momento da entrevista), o pessoal transige. Aí fica difícil.
A gente precisa de uma reforma de valores, precisa de uma sociedade que entenda que é no seu dia a dia, no que ela faz, que ela constrói o Brasil. Quem se deixa corromper é, de certa maneira, tão nocivo para o País quanto aquele que procura corromper o agente público. Quem foi o agente corrompedor, tem tanta culpa quanto quem corrompe.
O desânimo nessas eleições é reflexo dessa situação?
Muita gente tem me procurado para falar que está achando a sociedade apática. Eu contesto. A sociedade não está apática, a sociedade está indignada, incomodada, sem saber o que fazer. Apático seria achar que está bom do jeito atual. Não, não é assim. O desânimo se dá em relação a, toda vez que a gente acha que vai melhorar, não melhora. Daí fica a indignação, sem saber o que fazer. Essa ideia de que o voto vai sempre para o menos pior. Por quê vivemos isso?
Porque está faltando um líder inspiracional, especialmente com relação a essa ideia de valores, ética, transparência.
A sociedade brasileira busca – e eu tive larga experiência disso ao ser gestor de empresas com dezenas de milhares de funcionários – fazer a coisa corretamente. A maioria das pessoas é assim. Agora, precisa ter um líder inspirador que leve a isso. Infelizmente, não temos isso no momento. Fica a ideia: como cidadão, o que posso fazer com relação a isso?
Costumo dizer que a elite, no sentido de mobilização e educação, tem o privilégio de poder levar o Brasil para melhores caminhos. É isso que a gente precisa fazer, seja por meio do Manifesto, seja pelo trabalho que tive aí com o Estadão, do Brasil Adiante. É pouco a ideia de que ‘se não nós, então quem? E se não agora, então quando?’. A gente mobiliza, mas não gosto de chamar essa movimentação de responsabilidade, porque se não, parece peso. A gente tem o privilégio – e não a responsabilidade – de poder ajudar o Brasil.
Esse momento pode acender uma fagulha de mudança?
A gente está num ambiente com indignação e tensão suficientes para que uma fagulha possa despertar. Mas, para ter uma fagulha de mudança, é preciso ter uma liderança com alcance popular. Não temos expectativa nesses movimentos, seja no Brasil Adiante ou seja no ‘Pela lei, pelo Brasil’, de fazer uma mobilização de milhões de pessoas.
Mas uma liderança que fosse capaz de captar esse momento poderia, sim, fazer uma mobilização nas ruas e tudo mais. Não sei se vai acontecer, faltam pouco mais de 20 dias para as eleições. Certamente, existe uma preocupação dos órgãos governamentais, dos Três Poderes, de que a situação está tensa o suficiente para que não se jogue debaixo do tapete os indícios apontados até agora. Para que a única saída seja a da transparência.
Os Três Poderes estão sentindo que o calor está aumentando e a sociedade está manifestando isso a todo instante. O que importa é: desistir, jamais.
É uma mensagem de esperança?
Não dá para ficar embaixo do tapete. Não dá mais. Não sei se o limite chegou, mas fico satisfeito em ver uma sociedade indignada, que no devido momento saberá como se expressar, seja no voto, seja nas ruas, a depender da liderança que venha a sintetizar essa movimentação. Mas é, sim, uma mensagem esperançosa, sempre.
Luto, na minha vida inteira, por uma causa, que é fazer a coisa certa, do jeito certo. O Brasil precisa de referências, seja na vida privada, pessoal, nas empresas, no setor público. Precisamos de referências de que pode dar certo, sem transigir, sem cooptar ou ser cooptado. Isso existe e acontece, mas a gente precisa de mais referências para isso, que é o que eu estou chamando de uma reforma de valores, que acho que é o mais importante. Esse fim do sigilo é um pequeno passo. Não importa o tamanho, é preciso caminhar na direção certa. É isso que eu quero (Estadão, 12/9/26)

