12/05/2026

Por que o eleitor não se alegra com os números?

Por que o eleitor não se alegra com os números?

Imagem Blog CNN Brasil

 

Por Joel Pinheiro da Fonseca

 

  • A percepção da realidade está menos calcada nos dados, porque os caminhos pelos quais formamos essa percepção se baseiam menos neles para construir suas narrativas
  • Mesmo nos momentos favoráveis, sempre haverá algum dado ruim na economia e será possível encontrar um 'culpado'

 

No artigo "Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade", publicado no sábado, os economistas Laura Carvalho e Guilherme Klein levantam a questão que tira o sono dos analistas e, imagino, do próprio governo Lula.

 

PIB brasileiro cresceu acima da média do G20. O desemprego está na mínima histórica. A inflação de 2025 terminou abaixo do teto da meta. Há milhões de pessoas que não tinham emprego e agora têm. Que pagavam Imposto de Renda e não pagam mais. Os salários subiram acima da inflação. E mesmo assim a aprovação do governo segue pífia e metade dos eleitores acha que a economia está pior hoje do que no ano anterior.

 

Em geral, as explicações buscam dados econômicos que escapam aos grandes agregados macro, mas que impactam mais diretamente o bem-estar da população. No passado, PIB, desemprego e inflação bastavam para explicar aprovação. Hoje, é preciso procurar outros dados; quais? No início de 2025 era inflação de alimentos. Em 2026, o endividamento.

 

Pode ser. Ao mesmo tempo, essas explicações têm um sabor ad hoc. Mesmo nos momentos mais favoráveis, sempre haverá algum dado ruim na economia. Então sempre será possível encontrar um "culpado" pela má aprovação, sem capacidade explicativa ou preditiva.

 

Carvalho e Klein olham para um aspecto mais subjetivo: como a economia impacta o eleitor depende de expectativas e da memória dele. Os preços, mesmo depois da queda da inflação, não voltaram ao patamar anterior. Por isso as pessoas seguem insatisfeitas. Mas desde quando a ausência de uma deflação brutal (que jogasse os preços de volta ao que eram cinco anos antes) impediu que um governo melhorasse sua aprovação após a queda da inflação?

 

Levantam também a memória do eleitorado, comparando o desempenho econômico de Lula 3 com os primeiros mandatos. Mas a avaliação de Lula entre jovens que nem se lembram dos primeiros mandatos é pior do que entre os idosos, que lembram bem (Quaest, abril 2026). A memória de Lula 1 ajuda o governo.

 

Trago uma outra hipótese: o que está atrapalhando a aprovação do governo são fatores subjetivos não necessariamente ligados à economia. A percepção da realidade está menos calcada nos dados, porque os caminhos pelos quais formamos essa percepção se baseiam menos neles para construir suas narrativas.

 

Acessamos a realidade mediada por nossos valores, vieses e preferências, moldados entre outras coisas por aqueles que se comunicam conosco. E hoje essa comunicação se dá mais pelas redes e menos pelos discursos convencionais da imprensa. Narrativas contrárias ao poder, inclusive, têm hoje mais facilidade de se difundir do que no passado, o que também explica por que incumbentes sofrem tanto para se manter no poder.

 

Os EUA de Biden viveram o mesmo fenômeno. Economia crescendo em 2024, e mesmo assim a maioria acreditava estar em recessão. No fim do governo Biden, 41% dos democratas achava que a economia ia bem, contra 10% dos republicanos. Bastou mudar o governo para Trump que o cenário se inverteu: 44% dos republicanos achavam que a economia ia bem em abril de 2025, contra 10% dos democratas.

 

Se essa hipótese estiver correta, então se conectar com os eleitores e conquistar sua confiança no novo meio comunicacional é tão importante quanto apresentar resultados objetivos. E, nisso, Lula está muito atrás (Folha, 12/5/26)