Queda do rebanho nos EUA embaralha ainda mais a pecuária mundial
Fazenda de gado de corte em Rio Grande City, Texas (EUA) - Gabriel V. Cardenas/Reuters
Por Mauro Zafalon
- Importante fornecedor ao mercado externo, o país agora compra mais do que vende
- Recuo na produção da Europa e dos EUA mantém preço da carne aquecido
Os novos números do rebanho bovino dos Estados Unidos, divulgados pelo Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) na sexta-feira (30), embaralham ainda mais o mercado dessa proteína no mundo. Os americanos começaram o ano com 86,2 milhões de cabeças de gado, o menor número desde a década de 1950. Na década de 1970, chegaram a ter 132 milhões de cabeças.
O rebanho mundial, que registra a quarta queda seguida, deve ficar em 903 milhões neste ano, 127 milhões a menos do que em 2014, quando esteve em 1,03 bilhão de animais. A retração do rebanho dos Estados Unidos ocorre em um período de queda também no Brasil, na China e na União Europeia e de estabilidade na Índia, os principais produtores mundiais. As estimativas são do Usda, mas parte do mercado brasileiro não acredita em uma retração nacional.
O consumo de carne bovina teve uma aceleração a partir de 2019, devido à brusca redução na oferta de carne de porco na China, provocada pela peste suína africana. De 2021 a 2025, o consumo mundial de carne bovina subiu 21,5%, atingindo 60,2 milhões de toneladas no ano passado e elevando os preços para patamares recordes.
Os Estados Unidos são importantes nessa engrenagem porque, até então, eram fornecedores do mercado internacional, com ganho líquido nas transações entre exportação e importação. A contínua queda do rebanho faz o país importar mais do que exporta. Para este ano, na avaliação do Usda, os americanos vão comprar 2,47 milhões de toneladas de carne bovina e exportar 1,13 milhão. Isso ocorre em um período de aumento de consumo interno, que deverá subir para 13,1 milhões de toneladas neste ano.
A queda na produção americana, que recuou para 11,7 milhões de toneladas no ano passado, 9% a menos do que em 2022, mexe com os preços, tanto no mercado interno como no internacional. Em dezembro do ano passado, os americanos pagavam pela carne bovina 19% a mais do que no final de 2024. O volume de importação se aproxima mais do das compras chinesas, que é de 3,7 milhões por ano.
A queda no rebanho americano não tem mudança de rumo a curto prazo. Há uma redução no número de vacas que pariram no ano, somando 37 milhões. Já o número de vacas no Brasil atinge 86 milhões e é do tamanho de todo o rebanho de gado dos Estados Unidos. O total de animais no Brasil, dependendo da fonte utilizada, vai de 170 milhões a 240 milhões.
A queda no rebanho americano e uma provável demora na sua recomposição têm várias causas. Uma delas foi o grande subsídio dado à produção de grãos, que incorporaram áreas de pastagens. A pecuária dos Estados Unidos, assim como a de várias partes do mundo, sofre com os efeitos climáticos, embora o governo americano não acredite nisso.
Os custos de produção aumentaram, mesmo com a produção de grãos tendo sido recomposta. Energia e outros custos pesam na conta. O nascimento de bezerros recuou para o menor número em oito décadas, o que dificulta a evolução da pecuária no país.
Nesse cenário de redução mundial de oferta, a China, maior importadora mundial, tenta conter a sua demanda externa, impondo cotas aos principais produtores e abrindo mercados com menor potencial. Já o Brasil, na contramão do mercado, assumiu a liderança mundial na produção e é o maior exportador (Folha, 3/2/26)

