23/02/2026

Ray Goldberg: o homem que inventou o conceito moderno de agronegócio

Ray Goldberg: o homem que inventou o conceito moderno de agronegócio

Foto Reprodução Linkedin

Por: Camilo Calandreli

 

O mundo do agro perdeu uma de suas mentes mais brilhantes. Faleceu Ray Goldberg, professor da Harvard Business School, o homem que deu nome, método e estrutura ao que hoje chamamos de agronegócio.

Se hoje falamos em cadeias produtivas integradas, governança, contratos, coordenação vertical, logística global e segurança alimentar como parte de um sistema, é porque alguém, décadas atrás, decidiu olhar além da porteira.

Esse alguém foi Ray Goldberg.

 

O nascimento do conceito de “Agribusiness”

 

Em 1957, ao lado de John Davis, Goldberg publicou a obra clássica:

A Concept of Agribusiness

Ali, ele apresentou uma ruptura intelectual: a agricultura não poderia mais ser analisada apenas como produção rural isolada. Ela deveria ser entendida como um sistema econômico integrado, envolvendo:

 

  • Indústria de insumos
  • Produção agrícola
  • Processamento
  • Logística
  • Distribuição
  • Mercado consumidor

 

Essa visão sistêmica foi revolucionária.

Até então, o agricultor era visto como produtor primário. Goldberg mostrou que ele fazia parte de uma cadeia coordenada de valor — um ecossistema econômico completo.

 

A revolução silenciosa que transformou o mundo

 

Goldberg antecipou o que hoje chamamos de:

 

  • Integração vertical
  • Governança contratual
  • Coordenação de cadeias
  • Segurança alimentar global
  • ESG aplicado ao agro
  • Diplomacia alimentar

Ele compreendeu antes de muitos que o alimento não é apenas produto — é estrutura geopolítica, estabilidade social e poder estratégico.

 

Sua influência ultrapassou os Estados Unidos. O modelo conceitual de agribusiness moldou:

 

  • Políticas públicas
  • Estratégias corporativas
  • Estruturação de cooperativas
  • Formação de multinacionais do setor
  • Programas de MBA especializados em agro

 

Ele ajudou a transformar a agricultura de atividade primária em indústria estratégica global.

 

A influência no Brasil

 

O Brasil talvez seja um dos maiores exemplos vivos do legado de Goldberg.

O país que saiu de importador de alimentos nos anos 70 para potência agroexportadora no século XXI construiu sua ascensão com base justamente em:

 

  • Cadeias organizadas
  • Integração produtor-indústria
  • Logística estruturada
  • Inovação tecnológica
  • Governança empresarial

 

O conceito de agronegócio foi absorvido por universidades, cooperativas, EMBRAPA, tradings e pelo setor financeiro.

Hoje, quando falamos que o agro representa quase 25% do PIB brasileiro, estamos falando da materialização prática da visão de Ray Goldberg.

 

Mais que um professor, um estrategista do alimento

 

Goldberg não era apenas um acadêmico.

Ele foi arquiteto intelectual de:

 

  • Modelos de governança em cadeias alimentares
  • Parcerias público-privadas
  • Diálogo entre sustentabilidade e produtividade
  • Estratégias para combate à fome

 

Ele entendeu algo fundamental:

“não existe estabilidade política sem estabilidade alimentar.”

 

O legado que permanece

Ray Goldberg nos ensinou três grandes lições:

 

  1. Agricultura é sistema, não setor isolado.
  2. Coordenação vale mais que improviso.
  3. O alimento é instrumento de desenvolvimento e soberania.

 

Sua morte encerra uma trajetória extraordinária, mas seu pensamento permanece estruturando o agro mundial.

Toda vez que um produtor assina contrato com uma agroindústria,
toda vez que uma cooperativa organiza sua cadeia,
toda vez que um país discute segurança alimentar como política de Estado,

há ali, ainda que silenciosamente, a influência de Ray Goldberg.

 

Hoje o agro global se despede de um visionário.

Mas sua revolução — essa continua viva, nas lavouras, nos portos, nas bolsas de commodities e nas mesas de bilhões de pessoas.

Ray Goldberg não apenas estudou o agronegócio.

Ele o inventou.

 

Sobre o Autor:

 

Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública e Museologia, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de livros como:

  • Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil;
  • Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil;
  • Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.

Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove; 23/2/26)