25/08/2026

Recuperação extrajudicial da Braskem é pedido de socorro, diz especialista

Recuperação extrajudicial da Braskem é pedido de socorro, diz especialista
  • Advogados ouvidos pela coluna veem RE petroquímica como resolução de problema imediato de caixa
  • Eles veem possibilidade de que situação da empresa evolua para recuperação judicial
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Especialistas ouvidos pela coluna avaliam que a recuperação extrajudicial da Braskem é uma solução tampão. Elas resolvem um problema imediato de caixa, mas não a origem da crise. A avaliação é que o acordo compra tempo, mas não é a solução definitiva, e a maior petroquímica da América Latina vive hoje uma tensão entre o alívio de curto prazo e a sustentabilidade no futuro. Um deles diz que a recuperação extrajudicial é um "pedido de socorro".

 

Braskem protocolou nesta segunda-feira (24) pedido de recuperação extrajudicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital de São Paulo. O objetivo é reestruturar dívidas de cerca de US$ 10,9 bilhões (R$ 56,2 bilhões). A companhia assegurou adesão de 39% dos credores, o que atende ao percentual para fazer a solicitação, e agora tem 90 dias para atingir o número necessário para a aprovação do plano.

 

Cerca de 75% da dívida da empresa está em fundos estrangeiros como AllianceBernstein, Morgan Stanley, GMO, Invesco e JPMorgan. O restante se divide em debêntures, CRAs e bancos locais.

 

"Nessas condições, quando bancos e fundos mais estruturados impõem condições inviáveis, você faz o acordo possível. É um reescalonamento que dá fôlego, mas que não ataca a origem do problema. Não sei se vai acontecer com a Braskem, mas não são raros acordos como esse que migram para a recuperação judicial porque a empresa não tem fôlego para cumprir o que promete", afirma Renato Scardola, sócio da Scardola e Dele Sole Advogados, especialista em recuperações judiciais.

 

Segundo Marcos von Mühlen, advogado especialista em direito empresarial e societário, o pedido da Braskem não representa um movimento planejado, mas um sinal de agravamento da situação da companhia.

 

Ele diz que a entrada do IG4 como investidor gerava expectativa positiva entre os acionistas, mas o pedido de tutela cautelar apresentado em junho, que suspendeu processos de cobrança, já indicava fragilidade. Von Mühlen classifica a RE como "um pedido de socorro."

 

Von Mühlen aponta uma dimensão de governança por trás da crise. Segundo ele, o caso de Maceió evidencia que o problema deixou de ser apenas financeiro e passou a envolver falhas em níveis gerenciais e de direção, com reflexos sobre todo o mercado de capitais, não apenas sobre a Braskem.

 

Ele também vê como alta a chance de a recuperação extrajudicial se transformar em recuperação judicial, dado o porte e a complexidade da dívida. O advogado ainda observa que o período eleitoral limita o apoio governamental à companhia, mas, por outro lado, reduz a exposição midiática do caso, o que pode facilitar negociações mais discretas com bancos credores.

 

Em conversa reservada, outra advogada opinou que a melhoria na geração de caixa da empresa, com salto expressivo no resultado operacional (Ebitda recorrente passou de cerca de US$ 74 milhões no segundo trimestre de 2025 para US$ 1,04 bilhão no mesmo período deste ano), é de natureza cíclica do setor petroquímico. Não se trata de uma redução efetiva do endividamento.

 

Ele afirma que a pergunta central não é quanto da dívida da Braskem será alongada, mas qual nível de endividamento a companhia suporta em eventual cenário de ciclo ruim (Folha, 25/8/26)