Sem agilidade, Lula toma rasteira atrás de rasteira
Jorge Messias na sabatina na CCJ do Senado - Evaristo Sá - 29.abr.26-AFP
Por Alvaro Costa e Silva
- Petista não percebe o caminhão de gente contra ele; e não são só bolsonaristas
- Com Executivo e Judiciário nas cordas, há desequilíbrio entre os Poderes
Marco temporal das terras indígenas, saidinhas de presos, flexibilização do licenciamento ambiental, IOF, redução de penas a condenados no 8 de Janeiro invalidando a Lei Antifacção. A lista de derrotas do governo impressiona pela falta de articulação e reação. Até a reforma tributária, considerada a maior conquista de Lula 3, teve alguns pontos desconsiderados.
Se o presidente não contava com o veto a Jorge Messias na indicação ao STF, podia ao menos se precaver da rasteira. Do jeito que foi desferido, o golpe o deixou estatelado faltando cinco meses para as eleições.
Em seu terceiro mandato, Lula se mostra alheio à realidade. Míope e com a percepção amarrada a um passado sem volta, demora a perceber que há em Brasília um caminhão de gente contra ele. Não são só bolsonaristas. No complô, há até quem use toga.
Na tarde de quarta-feira (29), enquanto Messias era sabatinado após meses na geladeira, um mapa elaborado pelo governo, sob a responsabilidade do senador Jaques Wagner, confiava na barganha de cargos e emendas e na escrita de 132 anos sem recusa de uma indicação presidencial. O levantamento não podia estar mais errado: previa o apoio do centrão, de parte da oposição e da bancada evangélica ao nome do advogado-geral da União.
As contas beiravam o delírio, apontando 49 votos favoráveis —no placar final, o indicado somou 34.
Na sabatina, Jorge Messias cumpriu seu papel à risca. Mais realista que o Planalto e temendo a reprovação, disse ser contra o aborto, sem sequer citar os casos em que a Constituição o permite. E que só pediu as prisões do 8/1 "por dever do cargo". Ao se declarar evangélico, chorou: "Aqui vos fala um servo de Deus".
Enquanto o espetáculo seguia na CCJ do Senado, Davi Alcolumbre ligava para seus colegas pedindo que votassem contra Messias, com a promessa de que não pautaria uma nova indicação do presidente (Folha, 1/5/26)

