Split playment: O fim do seu dinheiro em 2027 – Por Paula Sousa
Para quem achava que o governo Lula havia engavetado os planos de controle digital com o DREX, achou muito errado. Na verdade, a sanha arrecadatória apenas encontrou no split payment uma artimanha paralela e ainda mais imediata para assaltar o bolso do brasileiro, transformando a utopia da moeda digital em um pesadelo real de confisco instantâneo.
A partir de 2027, entra em vigor o split payment, um mega sistema automatizado que promete ser 170 vezes maior que o Pix em volume de transações. Mas não se engane com a propaganda oficial. Sob o pretexto romântico de modernizar o fisco e combater a sonegação, a Emenda Constitucional 132 — a famigerada Reforma Tributária promulgada em dezembro de 2023 — esconde uma armadilha mortal contra o livre mercado.
O funcionamento é de uma simplicidade assustadora e cirúrgica. Pense na seguinte cena: você vai a um restaurante e paga uma conta de 100 reais. No exato instante em que o cartão ou o Pix é processado, o algoritmo do governo entra em ação. Sem pedir licença, ele divide o dinheiro. O restaurante recebe apenas a sua parte líquida — digamos, 72 reais — enquanto os outros 28 reais são desviados na velocidade da luz diretamente para a conta do fisco. O dono do negócio nunca chega a ver a cor do imposto; o dinheiro é confiscado na fonte, antes de tocar o caixa da empresa.
A Receita Federal gastou nada menos que 2 bilhões de reais apenas para erguer essa gigantesca infraestrutura de vigilância financeira. Os testes operacionais começam já em 2026, servindo como uma terrível contagem regressiva para o comércio nacional.
Para quem nunca administrou uma padaria, essa ideia pode até parecer justa. Afinal, por que não recolher o tributo imediatamente? A resposta está na dura realidade da gestão de caixa, algo que os burocratas de Brasília fingem ignorar. Hoje, quando uma micro ou pequena empresa realiza uma venda, ela recebe o valor integral. Até a data legal do recolhimento, esse intervalo serve como um fôlego financeiro essencial — um capital de giro sem juros usado para pagar fornecedores de 60 dias, salários no início do mês e o aluguel atrasado. O split payment aniquila essa janela vital. Ao retirar o dinheiro antes mesmo que o empreendedor organize suas contas, o governo estrangula quem já opera no limite.
O cenário macroeconômico torna a mudança ainda mais cruel. Com uma taxa Selic sufocante mencionada em 14,5% ao ano, recorrer a empréstimos bancários para cobrir esse rombo diário no fluxo de caixa será uma sentença de falência. Em regiões com graves isolamentos geográficos, como Manaus, onde os custos logísticos já são absurdamente elevados, o impacto será devastador. Quando o pequeno fornecedor local quebrar por falta de liquidez, o grande comprador ficará sem opções, gerando um efeito dominó que resultará em prateleiras vazias e preços disparados. É a eficiência fiscal assassinando a atividade produtiva.
O fracasso internacional que o Brasil quer eopiar
O mais impressionante é que essa engenharia de arrecadação compulsória não é um sucesso global. Pelo contrário. Pouquíssimos países ousaram implementar o chamado VAT Split Payment, e nenhum deles teve a audácia de aplicá-lo ao comércio geral de forma irrestrita. Na Itália, o modelo é estrito e obrigatório apenas para transações comerciais realizadas diretamente com autoridades governamentais.
Na Polônia, o uso é restrito para conter fraudes em setores de altíssimo risco. O Peru caminha em passos lentos para uma implementação experimental. Já a Romênia tentou adotar o sistema de forma ampla para todas as transações, exatamente como o Brasil planeja fazer.
O resultado? Um desastre econômico, protestos empresariais e um caos de eficiência tamanhos que obrigaram o governo romeno a voltar atrás, cancelando as regras gerais e erguendo barreiras de proteção para não matar a própria economia.
Mas o governo brasileiro, empolgado com o sucesso técnico do Pix — um mecanismo genuíno de mercado criado para facilitar trocas voluntárias —, decidiu subestimar os efeitos sociais da sua nova invenção. O Estado prefere ignorar o exemplo da Romênia porque sua verdadeira prioridade nunca foi simplificar a vida do cidadão, mas sim alimentar uma sanha arrecadatória insaciável.
A máquina de desperdício e a sombra do poder
O pano de fundo dessa mudança é puramente político e moral. O governo Lula opera sob a premissa de que o dinheiro privado rende mais quando está sob o controle dos políticos do que nas mãos de quem trabalha. Como destacado pelo Jornal Contábil e pelo portal Migalhas, o mercado vive uma apreensão profunda, questionando se o sistema é uma modernização ou um gargalo intransponível.
A verdade nua, crua e devidamente tributada é que todo gasto do atual governo é uma obra-prima de ineficiência por definição. Se o Estado precisa apontar a arma da lei para extrair cada centavo do seu bolso, é porque a alocação desse dinheiro será fatalmente desastrosa. Afinal, alguém precisa bancar os luxos nababescos da nossa aristocracia socialista de Brasília, financiar emendas parlamentares perfeitamente inúteis, lubrificar os grandes esquemas de corrupção, erguer obras pessimamente executadas e bancar lagostas para a corte.
Isso sem falar no generoso dízimo para artistas milionários carentes de aplauso estatal, no cala-boca para a mídia tradicional e em projetos sem retorno social. Ao garantir que o imposto seja recolhido antes de qualquer um, assegura-se apenas que mais recursos caiam nas mãos de uma estrutura historicamente marcada pela corrupção e pelo desperdício de dinheiro público.
Enquanto veículos como o Correio Braziliense apontam que o varejo enfrenta seu pior semestre desde a pandemia e a BBC News discute o impacto das novas regras de publicidade de apostas esportivas (bets), a economia real míngua por falta de otimismo. Ao asfixiar o gerenciamento de caixa e eliminar o oxigênio financeiro do comércio, o split payment ameaça empurrar milhões de trabalhadores para uma informalidade gritante — baseada em dinheiro em espécie ou moedas digitais fora do radar estatal —, provando que o governo prefere matar a galinha dos ovos de ouro a abrir mão de sua sede insaciável por arrecadação. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 21/7/2026)

