02/02/2026

Starbucks concentra lucros na Suíça e passa impostos para países produtores

Starbucks concentra lucros na Suíça e passa impostos para países produtores

 

  • OUTRO LADO: Empresa diz cumprir integralmente as leis tributárias em todo o mundo
  • Cictar diz que subsidiária suíça infla preços internos e desloca lucros para fora de países como Brasi

 

Por Mônica Bergamo

 

Um relatório internacional aponta que a Starbucks ampliou, nos últimos anos, um modelo de planejamento tributário que concentra lucros na Suíça e reduz a arrecadação de impostos em países produtores de café, como Brasil, Colômbia, Vietnã e nações africanas.

 

O estudo é do Cictar (Centro Internacional de Pesquisa em Tributação e Desenvolvimento), organização que já havia denunciado, em 2025, o uso de uma subsidiária suíça da empresa que teria sido usada para evitar o pagamento de impostos sobre um lucro de até US$ 1,3 bilhão. Agora, segundo os pesquisadores, o mecanismo não apenas continua em operação como se intensificou.

 

A peça central do arranjo continua sendo a Starbucks Coffee Trading Company (SCTC), sediada no cantão suíço de Vaud, que compra aproximadamente 3% do café produzido no mundo. É essa unidade que registra a compra do café verde produzido no Sul Global e a revenda do mesmo produto, com margem elevada, para outras empresas do grupo. O café, segundo o relatório, não passa fisicamente pela Suíça.

 

Entre 2015 e 2023, a margem aplicada pela subsidiária permaneceu alta e estável. O Cictar afirma não ter identificado mudanças relevantes nas funções da empresa que expliquem esse nível de rentabilidade. A explicação está no preço interno cobrado dentro do próprio grupo: ao inflar o valor do café na etapa suíça, a empresa desloca o lucro para um país que oferece regimes fiscais mais vantajosos, o que resulta, na prática, em uma tributação efetiva reduzida.

 

Com isso, os países produtores ficam com a parte menos rentável da cadeia. O custo ambiental, o uso da terra e a mão de obra ficam no Sul Global, enquanto o lucro contábil é deslocado para fora. Segundo os autores, isso reduz a arrecadação de impostos justamente onde o café é produzido.

 

Em resposta incluída no próprio relatório, a Starbucks afirma que o estudo "não reflete de forma precisa" seu modelo de negócios. A empresa diz que a SCTC desempenha papel central na compra e no fornecimento de café de alta qualidade proveniente de mais de 30 países para atender à demanda global da marca.

 

Em nota à coluna, a marca acrescenta que "cumpre integralmente as leis tributárias em todo o mundo e teve uma alíquota efetiva de impostos superior a 25% no ano fiscal de 2025. A SCTC (...) opera dez centros de suporte ao produtor para promover práticas agrícolas sustentáveis. A Suíça é um polo global de comércio de café, e a localização da SCTC garante acesso aos melhores talentos e proximidade com os fornecedores".

 

A Starbucks sustenta também que a estrutura financeira do grupo permite investir em programas de apoio aos produtores, como os Farmer Support Centers e o selo C.A.F.E. Practices, que incluem assistência técnica, sustentabilidade ambiental e apoio social em regiões cafeeiras.

 

O Cictar, no entanto, afirma que os números disponíveis não sustentam essa justificativa. Dados analisados pelo estudo mostram que alguns centros, como os da Colômbia e da Tanzânia, operam com orçamentos inferiores a US$ 1 milhão por ano e não recolhem imposto de renda local. No caso colombiano, o centro é registrado como entidade sem fins lucrativos.

 

No Brasil, maior produtor e exportador de café do mundo, o relatório aponta que o modelo afeta a arrecadação em um setor estratégico. Estados como Minas Gerais e Espírito Santo concentram pequenos e médios cafeicultores e dependem de políticas públicas para lidar com oscilações de preços e eventos climáticos. Menos arrecadação, dizem os pesquisadores, reduz a capacidade de resposta do poder público.

 

O estudo também menciona questionamentos recentes sobre a efetividade dos selos de sustentabilidade da empresa, inclusive no Brasil, com relatos de problemas trabalhistas em cadeias certificadas (Folha, 31/10/26)