24/03/2026

Subsídio do governo é insuficiente para retomar importações de diesel

Subsídio do governo é insuficiente para retomar importações de diesel

Funcionários de posto em Porto Alegre ajustam preços de combustíveis - Diego Vara - 20.mar.26/Reuters

 

  • Programação de chegada de navios com o combustível é menor do que a metade do normal, segundo setor
  • Defasagem entre preço da Petrobras e cotações internacionais supera R$ 3 por litro

 

Importadores privados dizem que os termos do programa de subvenção ao diesel anunciados pelo governo na semana passada não serão suficientes para retomar as compras externas do combustível, que despencaram após o início da guerra no Irã.

 

No pacote para conter os preços do diesel, o governo anunciou o pagamento de um incentivo a produtores e importadores de diesel no valor de R$ 0,32 por litro, até 31 de dezembro, com limite de R$ 10 bilhões no total.

 

No entanto, segundo empresas ouvidas pela Folha, a elevada defasagem entre os preços da Petrobras e as cotações internacionais, além da pressão do governo sobre revendedores que repassarem alta de preços às bombas, inviabilizam compras no exterior por empresas independentes.

 

"Parei de importar porque ninguém quer pagar o preço do diesel importado", diz Ramon Reis, sócio da Nimofast, que opera na importação e distribuição. "Não dá para competir com o preço que a Petrobras cobra", afirma Livia Verjosvky, diretora comercial na importadora WM Trading.

 

O Brasil depende de importações para abastecer cerca de 30% do consumo de diesel.

 

A redução das importações levou a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) a anunciar na semana passada uma série de medidas para enfrentar "situação excepcional de risco" ao abastecimento em abril.

 

As compras externas caíram quase 60% nos primeiros 17 dias de março, disse a agência. E a expectativa do mercado é que o ritmo se mantenha. Executivos ouvidos pela Folha dizem que a programação de chegada de navios para as próximas semanas representa menos da metade do necessário.

 

A WM ainda tem embarcações a caminho, mas com produtos comprados antes do início da guerra. Verjosvky diz que, após a explosão dos preços no mercado internacional, a empresa não fez nenhum pedido.

 

A Petrobras fez um reajuste de R$ 0,38 por litro após o início da guerra, mas as defasagens em relação às cotações internacionais continuam em patamares recordes.

 

Na abertura do mercado desta segunda-feira (23), por exemplo, o litro do diesel nas refinarias da estatal custava R$ 3,09 a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis).

 

O programa de subvenção foi criado para reduzir as perdas de produtores e importadores, com a concessão de R$ 0,32 por litro vendido abaixo de um preço teto pré-estabelecido pelo governo. Importadores reclamam, porém, que o teto está muito baixo.

 

Para o diesel importado, o governo limitou o socorro a quem vender o produto a distribuidoras abaixo de um valor que varia entre R$ 5,28 e R$ 5,51 por litro, dependendo da região. Nesta segunda-feira, o preço de paridade de importação, que simula quanto custaria para trazer o diesel do exterior, variava entre R$ 6,60 e R$ 6,80 por litro.

 

"A conta não fecha", diz Verjosvky, da WM. "Não consigo vender no preço internacional, não consigo aderir à subvenção e o mercado está secando", afirma Reis, da Nimofast. Ele diz ter 80 milhões de litros de diesel parados em estoque por falta de quem pague o preço internacional.

 

Na semana passada, a presidente da estatal, Magda Chambriard, acusou empresas privadas de desviar os navios para outros países em busca de melhores preços. Disse que a área de inteligência da empresa identificou seis embarcações.

 

A Nimofast é uma das empresas que desviou navio com diesel para outros países, admite Reis. "Quanto mais produto descarrego no Brasil, mais corro risco de ficar com o produto parado e de ser criminalizado [por vender a preço mais alto que a Petrobras]".

 

A redução na importação por empresas privadas gerou um efeito cascata no mercado, segundo relatório divulgado pela ANP na semana passada: reduziu estoques no segmento de distribuição, já gera problemas pontuais de abastecimento e elevou a pressão sobre a Petrobras, principal fornecedora.

 

Postos de cidades ao redor de Campinas (SP), por exemplo, não conseguiram comprar combustível nesta segunda-feira (23), segundo o vice-presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas, Eduardo Valdivia.

 

De acordo com ele, o gargalo tem afetado sobretudo os postos de bandeira branca, que não possuem contrato de exclusividade com distribuidoras. Esses estabelecimentos têm tido dificuldade de comprar diesel tanto de importadores privados quanto de grandes distribuidoras, como Vibra e Ipiranga.

 

"A situação se agravou para além da semana passada; estive conversando com os responsáveis pelos postos e foram unânimes ao dizer que não conseguiram comprar produtos, seja para carregar hoje ou amanhã", afirma Valdivia.

 

Com a menor oferta em postos de bandeira branca, grandes distribuidoras de combustíveis, como Vibra, Ipiranga e Raízen têm ampliado suas importações para atender à maior demanda em postos bandeirados, disseram à reportagem dois executivos.

 

Essas empresas, porém, também questionam o preço teto da subvenção. Até agora, só a Petrobras anunciou adesão ao programa (Folha, 24/3/26)