Tarifaço:Flávio diz que Lula e o PT "jogaram contra o Brasil mais uma vez"
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto Reprodução Blog VEJA
Por Lucia Festuccia
Governo americano confirma tarifaço ao Brasil.
O embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos (USTR), informou ao governo brasileiro que já levou ao presidente Donald Trump a recomendação final para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A informação foi apurada pela CNN Brasil na manhã desta quarta-feira (15/7), data que marca o fim do prazo estipulado pelos americanos para a decisão.
A recomendação encerra um processo aberto pelo USTR há um ano, iniciado em 15 de julho de 2025, com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos — que investigou políticas brasileiras ligadas a comércio digital, meios de pagamento (caso do Pix), propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, tarifas preferenciais, corrupção e desmatamento ilegal.
Na última reunião entre as equipes técnicas, na terça-feira (14/7), Greer deu as negociações por encerradas e reclamou da falta de empenho por parte do Brasil, embora tenha dito ter "tomado nota" dos pedidos brasileiros para ampliar a lista de produtos isentos da sobretaxa.
Antes mesmo do anúncio oficial, esperado para a tarde desta quarta, fontes empresariais já trabalhavam com a expectativa de que a tarifa seria mantida em 25%, mas que a lista de exceções cresceria em relação à proposta original. Álcool e granito eram tratados como praticamente certos na lista de isenção; aço e calçados seguiam como pontos de indefinição. A avaliação é que Washington deve preservar da tarifa os produtos cuja falta poderia pressionar a inflação americana ou afetar cadeias produtivas dependentes de insumos brasileiros, caso de aeronaves e peças aeronáuticas.
Flávio Bolsonaro atribui a crise à diplomacia do governo Lula
Em publicação nas redes sociais, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo agravamento da crise comercial, afirmando que "Lula e o PT — o Partido do Tarifaço — jogaram contra o Brasil mais uma vez".
O senador atribuiu o avanço das tarifas à condução da política externa brasileira, classificando a diplomacia do governo como responsável tanto pelo aumento das tarifas americanas quanto pelas tarifas chinesas sobre produtos brasileiros. Ele também citou um número específico de críticas públicas feitas por Lula aos Estados Unidos ao longo dos últimos três anos e meio como evidência de que o desgaste diplomático foi construído pelo próprio presidente, e afirmou que o Brasil perdeu acesso ao mercado europeu de carne por um protocolo sanitário que, segundo ele, as autoridades brasileiras nunca chegaram a enviar.
Ao final da manifestação, acusou Lula de tentar transformar a disputa comercial em pauta eleitoral, dizendo que desta vez a estratégia "não vai colar".
Essas declarações se somam a uma sequência de embates públicos entre os dois lados nas últimas duas semanas. Em 1º de julho, Flávio enviou uma carta ao USTR pedindo que o tarifaço fosse suspenso até depois das eleições de outubro, argumento que Lula classificou publicamente como "entreguismo" e "atitude de traidores da Pátria". Em 2 de julho, o senador rebateu dizendo que o presidente era "o único que quer o tarifaço contra produtos brasileiros".
No dia 5, embarcou para os Estados Unidos e, no dia 7, participou de audiência pública do USTR em Washington defendendo a suspensão da tarifa — ocasião em que passou a resumir sua crítica na expressão "Partido do Tarifaço", em resposta ao apelido "Tariflávio" que o PT havia atribuído a ele, responsabilizando-o pela medida americana.
O governo Lula optou por não se manifestar oralmente na audiência do USTR, para evitar reconhecer Flávio como interlocutor legítimo do Brasil nas negociações comerciais, mantendo os canais considerados oficiais — Itamaraty, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e a embaixada brasileira em Washington. Fato que não encontra sonância na realidade.
TCU aponta déficit das estatais no governo Lula
Em paralelo à crise comercial, um parecer prévio do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as contas do governo referentes a 2025 apontou que as empresas estatais não dependentes do Tesouro — como Correios, Infraero, Eletronuclear e Casa da Moeda — vêm registrando déficits crescentes ao longo do governo Lula, revertendo os superávits observados durante o governo Jair Bolsonaro.
Segundo o TCU, essa deterioração ao longo do triênio 2023-2025 evidencia queda na capacidade de autofinanciamento dessas estatais e pressiona o esforço fiscal do país. O órgão atribuiu o cenário a falhas na supervisão ministerial das empresas.
De acordo com a série histórica do Banco Central, o conjunto dessas estatais teve superávit em anos do governo Bolsonaro, revertido para um ciclo de déficits a partir de 2023, já no governo Lula — quadro que passou a integrar o repertório de críticas da oposição à gestão econômica do atual governo.
Nota: o governo Lula nega responsabilidade pelo tarifaço e atribui a crise à atuação de Flávio Bolsonaro junto ao governo americano. Vale aqui indignar como o presidente Lula imputa eventual culpa ao Senador Flavio Bolsonaro, se o processo aberto pelo USTR foi iniciado em 15 de julho do ano passado, e não na audiência da Seção 301 dias atrás, que teve a presença marcante do Senador, a falta de memória ou conhecimento mesmo salta aos olhos.
Fica a pergunta que não quer calar: quem paga a conta de tudo isso? Não é o Planalto, não é o discurso de soberania repetido em nota oficial, não é a equipe econômica que segue de cargo garantido enquanto anuncia mais um resultado fiscal decepcionante. Quem paga é o brasileiro que vê o preço do arroz, da carne, do gás subir todo mês e não encontra, em nenhum pronunciamento do governo, uma palavra sequer de responsabilidade real pelo tamanho do estrago.
E não sou só eu que penso assim. Um levantamento recente ainda mostrou que a aprovação de Lula é a mais sensível à inflação e ao desemprego de qualquer presidente brasileiro nos últimos 30 anos — ou seja, mais de 70% da população sente exatamente o que eu sinto todos os dias no mercado, no posto de gasolina, na conta de luz. Isso não é oposição fazendo barulho. É gente comum, cansada, batendo à porta do próprio bolso e não encontrando resposta.
O tarifaço de hoje não é um raio em céu azul. É o resultado de um ano inteiro de negociação malconduzida, de um governo que prefere transformar cada crise externa em palanque eleitoral a resolver o problema de fato — e que, quando confrontado com uma tentativa de defesa vinda da oposição, prefere gritar "traição" a admitir que faltou competência técnica na própria equipe fazendária. Não há nada de doce nisso. É desilusão pura, é a sensação repetida de que o país anda de crise em crise sem que ninguém, lá em cima, sinta o peso do próprio erro.
O brasileiro comum não vive de nota oficial. Vive de salário que não estica, de conta que não fecha, de uma esperança que vai se esvaziando a cada novo capítulo dessa novela em que o governo sempre acha um culpado — menos a si mesmo.
Fontes
CNN Brasil — apuração de Daniel Hitner sobre a confirmação do tarifaço de 25% (15/7/2026)
Gazeta do Povo — "Flávio desembarca nos EUA para tentar barrar tarifaço antes da decisão de Trump"
Gazeta do Povo — "Flávio Bolsonaro fala contra tarifas: veja principais pontos da manifestação aos EUA"
Gazeta do Povo — "Lula e Flávio Bolsonaro têm estratégias opostas para defender o Pix diante dos EUA"
Gazeta do Povo — "Estatais têm déficit em todos os anos do governo Lula após superávit sob Bolsonaro" (parecer prévio do TCU)
Poder360 — "Após audiência nos EUA, Flávio chama PT de 'Partido do Tarifaço'"
Jovem Pan — "Flávio rebate Lula e diz que petista é o 'único que quer tarifaço'"
O Tempo — "Tarifaço, Pix e eleições: entenda o embate entre Lula e Flávio após carta a Trump"
Metrópoles — "Flávio Bolsonaro provoca Lula: 'É o único que quer o tarifaço'" e "Lula rebate carta de Flávio e acusa família Bolsonaro de 'entreguismo'"
Sobre a autora
Lucia Festuccia é advogada com sólida atuação jurídica em Ribeirão Preto. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se pela defesa de princípios, pela experiência prática no Direito e pelo engajamento nos debates políticos contemporâneos. Ativista e voz atuante no cenário público, integra o time de articulistas do portal BrasilAgro, contribuindo com análises jurídicas, institucionais e sociais. Também atua como membro da equipe pedagógica e consultora jurídica do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, desenvolvendo ações voltadas à formação cidadã, à valorização da cultura e ao fortalecimento das instituições; 15/7/26

