Todas as condições contra Lula – Por Eliane Cantanhêde
Presidente Lula mostra o dedo do meio durante cerimônia no Palácio do Planalto no início de julho. - Cristiano Mariz/Agência O Globo
Ao senador Flávio Bolsonaro, basta não cometer erros.
A onda é a favor de Flávio Bolsonaro e contra Lula, que tem condições de tempo e temperatura bastante adversos para atravessar o segundo turno com chance de vitória. Hoje, é possível fazer o que era impossível no primeiro turno: apostar num favorito, que é Flávio.
Ao senador, basta não cometer erros. Para o presidente, é preciso acertar nas estratégias, nos aliados e alvos, em pleno ambiente hostil e com o tempo correndo contra. Imagine-se o clima na campanha de Lula, envolto em decepção, desânimo e troca de acusações.
Nenhum candidato chegou em segundo lugar no primeiro turno e venceu no turno final, decisivo. Lula seria o único a conseguir a façanha desde a redemocratização, mas nada indica que tenha algum coelho para sacar da cartola, a tempo de mudar o jogo até o dia 25.
Flávio se move num ambiente nacional e internacional francamente favorável à direita – não à liberal, mas à extrema direita – e o Brasil mostrou sua cara, que se tornou conservadora, suscetível às “verdades” da internet e dos cultos e refratária a qualquer informação que contrarie suas crenças, por mais verdadeira que seja.
É impressionante o reacionarismo dos candidatos mais jovens, como uma certa campeã de votos, do PL, de 21 anos, em plena São Paulo de 2026, que combate ferrenhamente o feminismo. Será que ele sabe e realmente compreende do que se trata?
Assim, Flávio, além de ter os ventos favoráveis no segundo turno, já tem, desde já, a garantia de que poderá governar com muito mais apoio do que Lula, no Congresso, no Supremo, nos governos estaduais e em boa parte da sociedade para impor sua visão de mundo e de País, com seus preconceitos e retrocessos, sem resistência.
Já Lula, cercado por derrotados, inclusive na fala após primeiro turno, em que todos fingiam estar leves e felizes (felizes com o quê?), vai para a guerra do segundo turno contra um exército cheio de gás: cinco governadores e 121 deputados eleitos pelo PL, mais a futura bancada de 28 senadores do partido, embalados pelo sobrenome Bolsonaro e o cansaço do PT. Se eleito, vai enfrentar uma pedreira.
O balanço da votação em Estados e municípios é desolador para Lula e o PT. A tendência dos eleitores dos derrotados é Flávio. O mundo financeiro já deu seu recado, com a disparada da Bolsa e a queda do dólar com Flávio à frente. E a direita internacional, em ascensão na Europa, EUA e América Latina faz festa para Flávio.
Na sua fala, ainda no domingo, Lula parecia aturdido, um tanto perplexo, e confirmou que não está entendendo nada, ao repetir seus méritos na área social, bem conhecidos, e os envolvimentos de Flávio com milícias, Vorcaro e “outras cositas más”, também sobejamente conhecidos. Se nada disso fez efeito para 47% dos eleitores até agora, por que faria em três semanas?
A percepção e os movimentos do eleitorado estão, não só fora do controle, mas até fora da compreensão de Lula e dos seus, que não conseguem ver o óbvio: o problema não é Flávio, é a força da direita e a fadiga de material, que se aplica a Lula, ao PT e à esquerda, que estacionaram no mais do mesmo.
Lula não preparou um sucessor, não se ocupou em criar horizontes para o PT e nem mesmo arejou sua marca, suas ideias, seu time e suas falas. Virou passado, como José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Benedita da Silva e a própria Marina Silva, um ícone brasileiro no exterior.
Quem poderia apontar para o futuro foi sendo queimado ao longo dos anos e das eleições, em favor do próprio Lula. Caso de Fernando Haddad, que carrega três derrotas, não tem o carisma de Lula nem é uma Fênix, como ele, e não conta sequer como o endosso do próprio PT. Sobra alguém?
Jair Bolsonaro definiu Flávio como seu sucessor e construiu a carreira de Tarcísio de Freitas a partir de São Paulo, a joia da coroa. A previsão é de os dois digladiem pela legenda do PL em 2030, mas é melhor ter duas opções, como o bolsonarismo, do que não ter nenhuma, como o lulismo.
A derrota de Flávio no dia 25 será dele, mas o bolsonarismo é forte e se articula para dominar Executivo, Legislativo e Judiciário. Já a derrota de Lula será não só dele, mas do PT, da esquerda, de princípios e de avanços civilizatórios conquistados a duras penas. Ou seja, de uma era (Estadão, 6/10/26)

