Vendas de usinas tiveram impacto de R$ 460 milhões para a Raízen
Foto Raízen Divulgação
Raízen divulgou um prejuízo contábil de R$ 15 bilhões
A Raízen teve um ganho, até agora, de R$ 610 milhões com a venda de usinas que havia comprado da Biosev, em relação ao valor contábil desses ativos, segundo informações do balanço do terceiro trimestre da safra 2025/26. Ainda assim, devido à “baixa” desses ativos no patrimônio da empresa (impairment), que ultrapassou R$ 1 bilhão, o impacto dessas transações no resultado líquido na safra foi negativo em R$ 460 milhões.
No último trimestre, a companhia divulgou um prejuízo contábil de R$ 15 bilhões. Porém, as vendas de ativos em geral ainda foram mais impactadas pelos desinvestimentos dos negócios de energia do que com as de usinas de cana.
Desde novembro de 2024, a joint venture entre Cosan e Shell já concluiu a venda de cinco ativos adquiridos da Biosev: os canaviais da Usina MB, a Usina Leme, os canaviais da Usina Santa Elisa, e as indústrias e canaviais das usinas Passatempo e Rio Brilhante. Os ativos industriais da MB e Santa Elisa não foram vendidos, mas “hibernados” — paralisados por tempo indeterminado. A empresa também vendeu a Usina Continental, mas a transação não foi concluída até dezembro.
A receita com as vendas de usinas já somou R$ 2,8 bilhões, o que ficou cerca de R$ 600 milhões acima do valor que eles tinham no momento das alienações. Esse resultado tem efeito contábil e reflete uma desvalorização dos ativos nos últimos anos. Ou seja, não significa que a empresa teve lucro com a venda das usinas, observam analistas.
Na prática, o preço das usinas também recuou em relação ao valor da compra da Biosev. Na época, o múltiplo da compra ficou acima de US$ 60 por tonelada de cana de capacidade de moagem. Nas operações de venda realizadas recentemente, o múltiplo ficou na faixa dos US$ 40 a US$ 50 a tonelada.
A venda que mais gerou ganhos foi a das lavouras de cana da Usina Santa Elisa. Tida então como a “joia da coroa” na aquisição da Biosev, a venda desses canaviais rendeu à Raízen um ganho de R$ 878,3 milhões na linha de “resultado na alienação de ativos”, conforme o último balanço. Apesar disso, a empresa registrou uma perda contábil de R$ 798 milhões no acumulado da safra devido principalmente à hibernação da indústria.
A companhia acertou a venda de cerca de 60 mil hectares de canaviais — entre produção própria e contratos de fornecedores — com seis empresas. A Raízen anunciou inicialmente que a operação chegaria até a R$ 1,045 bilhão. Como nem todos os contratos de arrendamento e parceria puderam ser transferidos, a venda foi concluída em R$ 910,8 milhões.
Também rendeu fruto positivo a venda da Usina Leme, feita ao grupo Ferrari e à sementeira Agromen. O valor que a Raízen obteve com a venda da indústria e de seus canaviais foi de R$ 322 milhões, e o resultado descontado do ajuste contábil foi positivo em R$ 44,7 milhões. Porém, a baixa do ativo gerou um impairment maior, de R$ 53,4 milhões.
Outro ativo herdado da Biosev que rendeu ganho contábil à Raízen foi o canavial da Usina MB, em Morro Agudo (SP). Essas lavouras foram vendidas à Usina Alta Mogiana na safra 2024/25. No balanço daquela safra, a companhia não discriminou o ganho somente com esse ativo, mas reportou uma receita de R$ 328,9 milhões.
Ao mesmo tempo, a Raízen registrou uma provisão de perda de R$ 327,2 milhões referente à soma dos ativos de Morro Agudo e do Bioparque Santa Helena, que fora hibernado. Embora a empresa não tenha detalhado quanto dessa perda contábil refere-se a cada ativo, é possível concluir que o resultado líquido (valor de venda menos valor contábil) da venda da Usina MB tenha ficado positivo em, no mínimo, R$ 1,8 milhão.
Já a venda das usinas Passatempo e Rio Brilhante para o grupo Cocal teve resultado negativo, o que reduziu os ganhos obtidos com os outros desinvestimentos em usinas no trimestre. Conforme o último balanço, apenas a alienação desses ativos — indústrias e canaviais — resultou em perda de R$ 15,040 milhões e de R$ 297,819 milhões, respectivamente. Além disso, o impairment desses ativos acrescentou um impacto negativo conjunto de R$ 232 milhões.
A Raízen adquiriu a Biosev em 2021 por R$ 3,6 bilhões — na operação os então acionistas da Biosev ficaram com ao menos 3,5% da compradora. Com o negócio, a joint venture da Cosan e da Shell passou de 26 para 35 unidades industriais, agregando uma capacidade de moagem anual de 32 milhões de toneladas de cana.
As vendas das usinas pela Raízen ocorrem num momento em que os preços de açúcar estão pressionados e os juros altos, o que contribui para depreciar mais os ativos. “Economicamente, não seria um bom momento para vender ativos”, avalia Willian Hernandes, sócio da FG/A. Porém, ele ressalta que as usinas herdadas da Biosev não eram capazes de gerar margem suficiente para cobrir o gasto com juros.
Em suas interações com o mercado, a Raízen vem defendendo que as vendas são parte de um esforço de “simplificação de portfólio” e uma forma de levantar recursos para amortizar sua dívida bilionária. Procurada, a empresa não comentou (Globo Rural, 27/2/26)
Copersucar foi a maior beneficiada por venda de ativos da Raízen

Cana adicional representa volume potencial maior de açúcar e de etanol a ser vendido pela Copersucar — Foto: Globo Rural
Associadas da empresa adquiriram usinas e canaviais da companhia controlada por Cosan e Shell, ampliando capacidade de moagem.
A Copersucar, empresa de comercialização e logística dos principais produtos das usinas de cana-de-açúcar e com 26 empresas em seu quadro societário, é até agora a maior beneficiária do processo de vendas de ativos da Raízen. Desde o início da safra 2025/26 até o fim de agosto, suas usinas associadas já aumentaram sua capacidade de produção em cerca de 9 milhões de toneladas ao ano.
Isso não significa que a Copersucar terá, de imediato, um volume adicional de açúcar e etanol referentes à moagem de 9 milhões de toneladas de cana, já que todos os ativos operam com algum grau de ociosidade e parte deles está sendo incorporada já na metade da safra atual.
De qualquer forma, essa quantidade de cana adicional representa para a Copersucar um volume potencial maior de açúcar e de etanol a ser vendido, já que a empresa é a comercializadora exclusiva dos produtos de suas associadas. Procurada, a Copersucar não comentou.
Caso todos os ativos estivessem operando a plena capacidade, a Copersucar poderia ter 185 milhões de litros de etanol e 280 mil toneladas de açúcar a mais ao longo de toda uma safra para comercializar, tomando-se como base o atual mix de produção e rendimento industrial médio acumulado. Do início desta safra até a primeira quinzena de agosto, as usinas do Centro-Sul estão direcionando 49,14% da cana para a produção de açúcar e 50,86% para o etanol.
Nesta safra, porém, o impacto em volume de vendas para a Copersucar deve ser bem menor, já que os ativos ainda estão sendo incorporados, há ociosidade nas usinas, e os canaviais têm produtividades que oscilam.
Na safra passada (2024/25), as usinas associadas da Copersucar processaram 107 milhões de toneladas de cana. Com essa moagem de suas associadas e produtos de outras usinas, a Copersucar vendeu ao longo do ciclo 15,7 milhões de toneladas de açúcar e 9,6 bilhões de litros de etanol brasileiro.
A primeira compra de um ativo da Raízen por uma usina da Copersucar nesta temporada foi acertada pela Usina Ferrari, junto com a Agromen. A Ferrari, que tem 3,5% das ações da Copersucar, adquiriu a Usina Leme, que tem capacidade para processar até 1,8 milhão de toneladas de cana, e os canaviais que abastecem a indústria.
Depois, a Raízen vendeu apenas os canaviais da Usina Santa Elisa para seis empresas sucroalcooleiras, das quais duas são da Copersucar: a Virálcool e a Pintangueiras. Nessa operação, a Virálcool ficou com cerca de 10 mil hectares, enquanto a Pitangueiras ficou com uma área menor, em uma região em que produtividade média é estimada em 60 toneladas por hectare.
Isso representa um acréscimo de cerca de cerca de 1 milhão de toneladas de cana a essas duas usinas sócias da Copersucar. A Virálcool tem 5,6% de ações da Copersucar, e a Usina Pitangueiras tem 2,6%.
Por fim, a Cocal, que possui 8,8% de participação na Copersucar, acertou, na semana passada, a compra das usinas da Raízen Passatempo e Rio Brilhante, ambas em Rio Brilhante (MS), com uma capacidade conjunta de processar até 6 milhões de toneladas de cana por safra. Com esse negócio, a Cocal vai aumentar sua capacidade de moagem em 58% passando de 10,3 milhões de toneladas por safra para 16,3 milhões de toneladas anuais.
A Cocal tem duas usinas na região oeste de São Paulo, em Narandiba e Paraguaçu Paulista, que na safra passada processaram 8,3 milhões de toneladas de cana. Para esta temporada, a expectativa, apenas com as usinas de São Paulo, era processar entre 7,8 milhões e 8,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar (Globo Rural, 27/2/26)

